Violência sutil

Fui ver o Apocalyto do Mel Gibson. O realismo da violência em seus filmes é claramente proposital. Isso não significaria nada demais nestes tempos de cinema violento. O caso é que o Mel Gibson mostra a violência que ninguém quer ver, ou ainda, a violência cuja divulgação não é politicamente correta: a violência dos inimigos da civilização ocidental. O Ocidente moderno gosta de atirar no próprio pé. É a única civilização de que se tem notícia que tem uma relação quase hedonista com a auto-crítica. É como a minhoca que come o próprio rabo até sumir. E some mesmo!

Dentro desse contexto, quem pode então ser retratado como violento na mídia? O Bush, o Vietnã, Israel, os colonizadores europeus. Se o Mel Gibson mostrasse moscas entrando na boca de criancinhas africanas, duvido que os critiquinhos da Rolha de S. Paulo diriam que é violência gratuita. Violência gratuita é a dos outros.  A nossa deve ser malhada ad aeternum.

Na saída do filme, gosto de sondar os comentários. Um sujeito disse à esposa que queria ver uma outra abordagem, uma abordagem “antropológica”. Então pensei: Vocês já viram algo mais antropológico do que aquelas cenas de cabeças rolando pirâmide abaixo? Procurem as imagens de sacrifícios aztecas e maias no Google e verão do que estou falando. Haverá algo mais antropológico que as centenas de corpos apodrecendo por entre as moscas na vala comum dos sacrificados? Ah, esqueci, isso é violência gratuita. Afeta a sensibilidade dos pobres espectadores que, ao chegarem perfeitamente seguros ao conforto de seu lar, continuarão achando que não devem nada desse conforto e dessa segurança a seus antepassados que morreram das maneiras mais absurdamente violentas para construir, a ferro e fogo, a civilização em que vivemos (por pior que esta seja).

Enquanto isso, todo mundo continua achando que índio é bonzinho e colonizador é mau.

~ by Evandro Ferreira on February 15, 2007.

3 Responses to “Violência sutil”

  1. É, esse é um assunto complexo e que exige de todos um pensamento também complexo. Claro que o ‘etnocentrismo’ foi uma questão real, mas alcançou ares de politicamente correto. Falar que o ocidente, mal ou não, conseguiu alcançar outros níveis civilizacionais, tendo o pressuposto do indivíduo em seu centro, parece uma heresia…Enfim, vamo que vamo!

  2. O King Kong de 2005 já foi um bocado ousado ao mostrar que selva é inferno (não me venham dizer que selva *não* é inferno só porque não tem dinossauros nem sanguessugas gigantes).

  3. A Folha é mais um da turma do ranço contra Gibson.
    Ouvi uma guria dizer [com cara tom de decepcionada] que o filme poderia ter retratado a história de quando os espanhóis chegaram [para massacrar aquele povo ingênuo].
    Eu gostei do filme.

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