Outro dia li um comentário, feito de passagem: “Olavo de Carvalho – alguém ainda se lembra dele?”.

Sim. Lembro-me dele todo dia. E tudo o que ele fala me faz lembrar alguma coisa que eu vivi. Isso aí embaixo, por exemplo, me faz lembrar um certo dia, em certa sala de aula de uma certa PUC, quando falei à professora: “Os intelectuais deviam ter mais cuidado com as conseqüências de suas idéias”. E ela fez uma cara de quem estava ouvindo uma afirmação esquisitíssima (sabe quando a pessoa estica a bochecha e abaixa os lábios? mais ou menos como quem diz “puxa vida”? Pois é). O trecho aí embaixo é crucial para entender tudo o que o Olavo quer dizer. Nada do que ele diz faz sentido se não pensarmos sempre que a origem de toda a merda moderna (ou seja, a “transformação social”) está nas idéias. Veja:

“Todos os ‘movimentos sociais’ atuantes no Brasil, sem exceção, bem como as entidades que os representam e as leis baseadas nas suas reivindicações, nasceram da seguinte maneira:

1. Com dez, vinte, trinta anos de antecedência, os intelectuais esquerdistas de maior peso discutem e elaboram os conceitos e a linguagem das novas idéias destinadas a revigorar e ampliar o movimento revolucionário mundial.

2. Em seguida essas propostas passam à alçada das grandes fundações bilionárias e organismos internacionais, onde o segundo escalão intelectual – técnicos, planejadores sociais, publicitários, ativistas — lhes dá o formato operacional para transmutá-las em propostas concretas.

3. Essas propostas são então espalhadas pelo mundo por meio de uma infinidade de livros, artigos, conferências, filmes, espetáculos de teatro, sempre subsidiados pelas mesmas fontes, mas apresentados como iniciativas independentes, de modo a dar a impressão de que a mudança planejada provém de uma fatalidade histórica impessoal e não de uma ação organizada. Ao mesmo tempo, desencadeia-se um conjunto de operações preventivas destinadas a neutralizar, reprimir e, se necessário, criminalizar toda resistência.

4. Só então as propostas chegam aos países do Terceiro Mundo, por meio de ONGs e agentes pagos que as inoculam primeiro nos círculos de intelectuais mais ativos, que as retransmitem aos estudantes e à mídia, não raro apresentando-as como suas criações pessoais e originalíssimas, de modo que a multidão dos aderentes não tenha a mais mínima idéia da existência de um empreendimento internacional organizado por trás dos efeitos políticos que se seguem inexoravelmente.

5. A última etapa é a produção desses efeitos, por meio dos agentes políticos – militância organizada, agentes de influência, legisladores – que transformam as propostas em leis e instituições.

Na última etapa, as origens intelectuais das propostas, bem como sua base internacional de sustentação financeira e organizacional, já se tornaram praticamente invisíveis para a população em geral, de modo que toda a discussão a respeito, destinada a fazer com que a adoção das novas medidas pareça surgir do fluxo normal e espontâneo da vida democrática, se atenha às definições nominais e aos aspectos mais periféricos das questões respectivas, sem possibilidade de examinar seja o esquema de poder que articulou a seu belprazer a situação de debate, seja as implicações históricas de longo prazo que advirão das transformações pretendidas. Quando essas conseqüências se revelam catastróficas, a culpa pelo erro que as produziu já está tão disseminada pela sociedade que toda tentativa de rastrear e responsabilizar os autores das propostas iniciais, caso ainda ocorra a alguém a tentação de empreendê-la, começa a parecer rebuscada e artificiosa como uma ‘teoria da conspiração’.”

~ by Evandro Ferreira on December 11, 2006.

6 Responses to “”

  1. Evandro…eu também, todo santo dia me lembro de Olavo de Carvalho. Gostaria de viover em um mundo em que eu não precisasse todo dia me lembrar dele…
    Parabéns pelos blogs…agora, se desse pra vc colocar as letrinhas mais branquinhas…

  2. É triste viver num mundo assim, não é? Mas podemos ler os grandes ensinamentos filosóficos dele também.

    Puxa vida, quanto às letrinhas, eu o faria com o maior prazer, mas é que não tenho acesso ao “template” do blog. Experimente dar “zoom”, para que elas fiquem maiores!

    Abraços,

    Evandro

  3. Peço desculpas ao Sr. Jaino, mas tive de apagar seu comentário. Não vou aceitar palavras de baixo calão aqui neste espaço.

    Quanto a sua pergunta (“o que fez este país para merecer” o Olavo de Carvalho), só posso responder: absolutamente nada.

  4. Lembro dele sim. Graças a descoberta de sua existência e produção intelectual tenho ampliado minha visão de mundo e do mundo.
    O ouço toda segunda-feira pelo no programa True Outspeak. Muito esclarecedor.
    E pra voce, parabéns pelo blog.

  5. Evandro, defina “baixo calão”. No teu post lá em cima tem um “merda” bem grande. Essa palavra deixou de ser baixo calão, ou os teus pesos & medidas só valem para o que os outros escrevem?

    PS: Não li o post do Jaino, mas a princípio sou contra a baixaria gratuita.

    F.

  6. Se quiser falar “merda” pode falar. O que ele falou era bem pior.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: