Aquele que tudo leu?

Uma pessoa me perguntou, “como você já leu todos esses livros?”

Bem, eu diria primeiramente que saber os nomes dos livros não é prova de que você os leu.

Sou um picareta então?

Mais ou menos. Já li muitos livros mesmo, mas tenho certeza de que nem a metade do que as pessoas pensam que eu li. Acho que isso é normal em tempos de não-leitura. Se ninguém lê nada, quem lê um pouco parece que lê muito.

Não que eu ache que ler seja a solução. Os franceses lêem como loucos e de nada adianta. Ou melhor, adianta, ô se adianta!

A coisa seria mais ou menos assim: “Ler não é a solução, mas leiam.”

A verdade é que tudo hoje é uma competição, e as pessoas acham que, quando você diz que leu algo, está competindo com elas. Mas nem todo mundo acha isso.

Agora, realmente não sei o que fazer quando estou lendo Edmund Burke e vem um leitor de “Os 7 hábitos das pessoas muito eficazes ou coisa que o valha” e me pergunta o que estou lendo. Isso aconteceu comigo e eu disse, “Um livro aí”. Então ele disse, “Sobre a Revolução Francesa?” E eu disse, “É.”

Uma outra me diz que está aprendendo muito com a leitura do supracitado coisa que o valha. Sim, eu também aprendo muito lavando pratos. A coisa exige paciência, prudência e técnica (aquelas coisas que você aprende nos livros de filosofia). A “questã” é que você pode ler 1 livro sobre como lavar pratos, 1 livro sobre como se relacionar com as pessoas, 1 livro sobre como ser feliz, 1 livro sobre como lavar seu cachorro antes de almoçar etc etc, mil etcéteras. E sempre vai haver coisas que você ainda não aprendeu, porque você simplesmente não terá lido os livros que realmente importam, que são aqueles que te ensinam que há coisas que você pode aprender sozinho, a partir de meia dúzia de princípios universais.

Resumindo, até a idéia de que pessoas práticas devem ler livros que ensinam práticas é uma falácia. Quem quisesse ser realmente eficaz leria meia dúzia de princípios universais e já sairia fazendo muitas coisas. Não todas as coisas, é claro, mas no mínimo as mais básicas, como se relacionar com as pessoas ou manter a estabilidade emocional. Mas é claro que ninguém fará isso movido pelo desejo de ser eficaz.

~ by Evandro Ferreira on December 9, 2006.

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