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Os EUA e o falatório ambientalista

“Apesar da oposição do governo Bush ao Protocolo de Kyoto, 28 dos 50 Estados americanos e dezenas de empresas multinacionais sediadas nos Estados Unidos já estão adotando voluntariamente medidas de redução de gases poluentes com o objetivo de combater o aquecimento global.”

Isso saiu no UOL hoje e veio da BBC de Londres. É um caso típico de manipulação de informação, de distorção dos fatos. Mais precisamente, é o estabelecimento de uma relação – entre dois fatos – inversa à que ocorre na realidade.

A realidade, que ficou mais do que provada durante a Rio +10 – em Johannesburgo, em 2002 – é que o governo americano se posiciona da seguinte maneira, nessa questão da redução da emissão de gases poluentes: prefere fazer do que falar, e prefere deixar que a iniciativa privada o faça, por não ser esse o papel de um Estado minimamente liberal. Durante aquele encontro, em 2002, Colin Powell cumpriu uma agenda paralela às discussões intermináveis entre os representantes dos vários países presentes. Esta agenda, que foi divulgada até pela mídia brasileira (mais precisamente, o Estadão), consistiu em reuniões com representantes da iniciativa privada, onde foram estabelecidos diversos pactos de cooperação mútua, totalizando um montante de dólares bastantes significativo, mas que agora me foge à memória. Além disso, não obstante a clara preferência por iniciativas que desonerem o Estado de mais essa função, o próprio Colin Powell declarou, ao ser vaiado por ambientalistas durante seu discurso na Rio +10, que o próprio governo americano está tomando providências efetivas quanto ao problema do meio-ambiente: “Estamos comprometidos não somente com a retórica ou com objetivos abstratos, mas com um programa de US$ 1 bilhão para desenvolver tecnologias avançadas destinadas a mitigar as emissões de gases de efeito estufa”. Esta declaração saiu na Folha de S. Paulo, à época, e pode ser encontrada mediante uma simples pesquisa no Google, usando as palavras-chave: “Colin Powell” “Protocolo de Kyoto”.

O que a reportagem da BBC faz, então? Diz que as empresas, na prática, aderiram ao protocolo de Kyoto, a despeito de o governo americano não ter aderido. Mas, a relação é justamente a inversa: o governo não aderiu ao protocolo, justamente porque, na prática, as empresas – e o próprio governo – já estão trabalhando há tempos em prol da redução de poluentes. Além disso, as leis anti-poluição nos EUA são muito mais rigorosas que em qualquer outro país do mundo. O governo americano não vê por que entrar no blá-blá-blá das reuniões de cúpula, na produção infinita de regulamentações que prejudicam a economia (vide o dinossauro que é a União Européia), nos gastos públicos que deveriam ser privados etc etc etc. A ONU está aí para provar que cúpulas não resolvem nada, pois representam apenas mais um cenário para o eterno falatório inútil que tem sido a política internacional, desde o advento dos órgãos internacionais, filhos dessa coisa disforme que é o direito internacional hoje em dia. A África também está aí para provar que bilhões e bilhões de dólares não vencem a estupidez humana, pois esta tem de ser vencida pela inteligência e não pelo dinheiro.

Essas reportagens são tão absurdamente simplistas, que chego a pensar se o jornalista é um ser pensante ou se é uma espécie de Windows XP bípede, que inverte relações lógicas óbvias e dá pane a cada duas semanas. O pressuposto de uma matéria dessas é algo como “o tal do Bush quer continuar poluindo o mundo, por isso não assina protocolos; mas todos estão contra ele”. Nada de explicar políticas externas, nada de falar de ciência política e economia, nada de falar de intervencionismo estatal e da inferioridade do blá-blá-blá ambientalista abstrato diante das ações concretas que precisam ser tomadas para preservar a natureza. Nada disso, apenas um pressuposto imbecil e uma conclusão inversa. Às vezes acho que, para dar um jeito no jornalismo, só com um Control+Alt+Del.

~ by Evandro Ferreira on February 17, 2005.

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