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Cada estilo de época literário inscreve sua contribuição em uma trama maior que ele: o legado cultural da humanidade, esta coisa abstrata e perene, cuja existência mesma virou moda negar. Nunca vi nenhum professor de literatura dizer isso. De minhas aulas de literatura na escola trago uma lembrança estranha, a de que, mais ou menos de século em século, os homens resolviam mudar de mania de escrever. Tinham a mania de escrever rebuscado, depois tiveram a mania de escrever coisas melosas, depois a mania de buscar romper com o passado em seus escritos etc etc. E o mais estranho: lutavam incansavelmente por essa mania, como se tivessem um estímulo mais forte que os tolos motivos que a mente moderna e esclarecida do professor demolia facilmente em poucos segundos.

Em outras palavras, eu nunca consegui entender o que realmente dava tanto estímulo aos artistas de cada época, que faziam até manifestos escritos para defender seus pontos de vista. Hoje vejo que talvez seja uma mistura de ideologia e humanitarismo. Por vezes os escritores tinham motivações mais universais, por vezes menos. Não sei. Mas, seja como for, os professores nunca sequer entraram no assunto. Preferiam empurrar aos alunos, como suposto conhecimento, a famosa ostentação moderna de esclarecimento e superioridade em relação às demais épocas, cujas mentalidades são sempre estudadas como curiosidades exóticas, tolices cronocêntricas ? típico do cronocentrismo dos nossos tempos.

~ by Evandro Ferreira on June 12, 2004.

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