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Fico impressionado com a leviandade com que as pessoas encaram a tradição neste país. Eu acho que deve ser uma postura principalmente dos latino-americanos e, em menor grau, dos norte-americanos, porque na Europa, por mais que um indivíduo esteja aberto a mudanças, ele sempre vai ter uma certa ligação com o seu passado, nem que seja só por causa da arquitetura que vê na rua.

Estou dizendo isso porque estava conversando com uma amiga sobre a União Européia e ela me dizia com a maior naturalidade que o direito inglês precisa mudar para se adequar ao da comunidade européia. Sabe o que significa essa supostamente necessária “adequação” do direito inglês? Significa mudar a maneira como os ingleses vêem o mundo. Significa mudar um jeito de resolver problemas que o inglês usa há séculos e que sempre deu certo, trocando-o por outro que a humanidade usa há milênios e que, na melhor das hipóteses, é bonzinho. Eu, sendo um ignorante no assunto “Direito”, não me sinto no direito de dizer muito mais que isso. Mas posso dizer que já vi teóricos que execram o direito romano. E acho que não seria um absurdo lembrar que os dois países do mundo cujos sistemas jurídicos melhor funcionam são justamente a Inglaterra e os EUA.

De todo modo, só achei importante comentar essa minha perplexidade diante da naturalidade com que as pessoas encaram mudanças hiper-radicais e absurdamente abrangentes aqui no Brasil. Elas realmente não acham nada de mais em se mudar todo o sistema jurídico de um país, talvez porque não vejam as implicações e impossibilidades culturais disso, talvez porque simplesmente elas não saibam o que é uma cultura (afinal, nós temos uma, mas é bem rarefeita). Fala-se tanto em respeitar a diversidade cultural, mas, no frigir dos ovos, cada um só respeita mesmo é aquele conjuntinho de elementos estéticos e de hábitos exóticos de uma meia dúzia de minorias eleitas. O resto pode ser mudado radicalmente, mesmo que tenha levado milênios para se consolidar e para se auto-elaborar. Ninguém vê nisso nada de errado.

Se todo mundo estivesse satisfeito com essas coisas, eu não diria nada. Mas eu ainda não conheci ninguém que não reclame da velocidade e da confusão do mundo moderno. Ah, já sei, o culpado disso é o capitalismo, né?

~ by Evandro Ferreira on March 31, 2004.

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