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Piada de mau gosto

Para preparar a classe média brasileira para ver o filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, o Estadão já publicou neste domingo (08 de março) a visão da mídia esquerdista inglesa sobre o filme. Assim, quando o filme estrear, a visão ortodoxa (e até a semi-heterodoxa) das escrituras já estará devidamente escondida debaixo do tapete, como “não-acadêmica”, segundo as palavras do jornalista do Guardian, traduzido para o português pelo jornal brasileiro: “Deixando de lado essas abordagens não-acadêmicas, como o Novo Testatmento retrata um último dia de Jesus à luz da história romana e judaica do 1º século?”

Até aí, tudo bem. Afinal, assuntos bíblicos são mesmo uma pedreira. Eu, com meus parcos conhecimentos, não posso dizer quase nada sobre o filme ser ou não fiel à Bíblia. Mas posso expor a piada que é a mídia. O entrevistado de dentro do Caderno 2 (a matéria do Guardian está na capa), é Geza Vermes, que, segundo o jornal, é o “maior especialista na vida do Cristo”, professor de Oxford. Maior especialista, hmm, tudo bem, estudou por mais de 30 anos as escrituras e a história da época. Agora, vejam o que ele fala de Jesus: “Foi uma pessoa extraordinária, mas não o filho de Deus”.

Como alguém que diz que Jesus não é o filho de Deus pode achar que tem autoridade para dizer que um filme sobre a paixão de Cristo é falso? Sua autoridade é, no mínimo, extremamente questionável, simplesmente pelo fato de que desafia uma tradição milenar em seu âmago.

Ele continua: “Até Zefirelli é melhor que Mel Gibson, no sentido de ter mais equilíbrio e tratar Jesus como homem de seu tempo. Jesus foi um judeu que viveu como judeu num mundo judeu. Já no primeiro século, o cristianismo perdeu o sinal do verdadeiro Jesus. O palestino carismático foi substituído pela figura do Cristo transcendental. Falo, obviamente, como historiador”. Imagino que, se o Cristianismo não tivesse perdido o que o historiador chama de “o sinal do verdadeiro Jesus”, ele teria se tornado uma anti-religião, um culto maluco que vaneraria um “homem de seu tempo” em um tempo diferente do desse homem.

Além disso, fico curioso. O que significa “falar como historiador”? Desconfio que os cientistas sempre dizem isso quando querem dar a sua própria ciência mais autoridade do que ela tem, numa espécie de redução epistemológica, uma lavada de mãos que livra o sujeito de ter que estudar filosofia, religião e teologia por mais umas boas décadas. A frase não passa de retórica para atribuir à história uma imagem de autoridade científica que a teologia, supostamente, não teria. Isso se confirma pela próxima passagem: “Como historiador, costumo dizer que considero Jesus, A Igreja primitiva e o Novo Testamento como parte do Judaísmo, o que vai contra a visão de teólogos, inconscientemente marcados por 2 mil anos de cristianismo”.

Dois mil anos de cristianismo estão errados. Todos os teólogos e historiadores cristãos estão errados. E um sujeito que se declara contra toda essa tradição interpretativa da Bíblia é justamente o escolhido pelos jornalistas para autorizar ou desautorizar o filme! Isso para mim tem nome: piada de mau gosto.

Agora veja uma das perguntas do entrevistador: “O ponto básico de sua tetralogia sobre Jesus é que só se pode entender o Cristo como personagem histórico e, para ser mais exato, como judeu. Isso desautoriza o filme de Gibson, não?”

E ainda uma outra pergunta do entrevistador: “O movimento desencadeado por Jesus é descrito como um tipo de comunismo em seu livro ‘The changing faces of Jesus’. O senhor acredita que a recusa de Gibson de encarar esse lado político o levou a desprezar um dado importante de sua personalidade?”. A resposta, entre outras coisas, foi que “Gibson obscureceu o papel social do líder carismático”.

Imagino que o historiador teria orgasmos se o repórter dissesse que Jesus era uma figura weberiana!

Deixe-me ver se entendi bem. A visão historicista, marxista e altamente heterodoxa do “especialista” inglês pretende desautorizar um filme sobre a paixão de Cristo. Algo como: “você está desautorizado por ser altamente ortodoxo”! Ao que Gibson poderia responder: “desautorizado por quem, cara pálida”?

O que estou querendo dizer é o seguinte. Se um jornal quer entrevistar especialistas que desafiam a visão cristã da Paixão de Cristo, tudo bem. Se um jornal quer apresentar visões heterodoxas de Jesus e descobertas científicas sobre a história de sua época, tudo bem. Mas apresentar isso tudo com as manchetes “A paixão mentirosa de Gibson” e “Jesus das telas contra o Jesus dos ‘Evangelhos'” é cinismo. Paixão mentirosa para quem? Para um historiador marxista? Um historiador ultra-heterodoxo que desafia 2 mil anos de interpretação e estudos cristãos é quem tem autoridade para dizer como é o “Jesus dos Evangelhos”? Se a mídia fosse honesta, um sujeito desses deveria aparecer em um canto de página, apresentando uma “visão alternativa” do assunto, e não no centro da página e como único entrevistado sobre o assunto.

Como dizem os crentes, “só Cristo” para agüentar o tendenciosismo da mídia, que apresenta opiniões novas como se já estivessem consolidadas e fossem inquestionáveis, ao mesmo tempo em que desdenha de 2 mil anos de estudos simbólicos, históricos e tradicionais, como se fossem crendice popular e absorção inconsciente da “marca do cristianismo”.

[Artigo publicado no MSM]

~ by Evandro Ferreira on March 9, 2004.

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