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O país mais inteligente do mundo

Sempre que surge uma polêmica nos EUA, ela chega aqui como certeza, consenso. Veja o caso do casamento gay. A coisa está dando o maior bafafá nos EUA. Partidários contra e a favor brigam pelo país afora, tanto que o próprio Presidente da República resolveu tomar partido (no caso, contra). A sociedade americana está discutindo intensamente e ainda vai continuar discutindo por muito tempo, como faz com tudo o mais. Há os que são contra, os favoráveis e, como sempre, os cínicos que adotam a famosa posição “vai acontecer de qualquer forma, não adianta querer se opor” (no caso, o New York Times).

E aqui? Aqui, as pessoas com quem converso têm todas muita certeza. Elas nem mesmo entram no assunto, de tão óbvio que acham o fato de que o casamento gay tem mesmo de ser legalizado. A postura é: “só podia mesmo ser o Bush para querer uma emenda constitucional proibindo”. O raciocínio político do brasileiro não tem muitos elementos. Ele é pobre mesmo. Então, qualquer questão política que chega aqui se transforma em uma questão de “inclusão” e de “por que não?” No caso do casamento gay, ele é esvaziado de todos os seus aspectos complexos e transformado mais ou menos no seguinte: “todo mundo tem direito a casar” e “casamento gay? Por que não?” Viu como é simples? Milênios de ética, religião e tradição? O brasileiro nem sabe o que é isso. Acha que o mundo civilizado chegou pronto até ele como mágica e vai se manter para sempre, mesmo que ninguém se preocupe em preservar.

Mas nem preciso entrar em toda essa discussão. Se as pessoas aqui tivessem um mínimo de bom senso, achariam ao menos estranho que 250 milhões de americanos, que moram em um dos países mais desenvolvidos do mundo, discutam ferrenhamente um assunto, mesmo sendo a resposta tão óbvia. Devemos ser o país mais inteligente do mundo, já que não temos dúvidas de nada. Sabemos exatamente tudo o que é melhor para nós. Apenas tivemos essa triste sorte de termos sido invadidos, certo dia, pela Zelite, um monstrinho de pernas tortas como as do Garrincha, anéis dourados nos dedos, como os de uma socialite, e madeixas louras como as da Xuxa. Hoje somos assim: um país onde absolutamente todo mundo sabe tudo, só não “vamos para frente” porque “tem gente” (a Zelite! A corrupção!) que não deixa a gente mudar “tudo isso que está aí”. Essa é a única explicação que consigo imaginar, na cabeça de um brasileiro, para a superioridade política, econômica e cultural dos EUA.

Mas por que estou dizendo isso? Afinal, para um brasileiro típico, os EUA não são superiores nem na politica, nem na economia e nem na cultura. Na primeira, eles têm apenas um texano louco brincando de proibições absurdas, na segunda são uns gananciosos selvagens e na terceira, bem, se eles têm centenas de ótimas universidades, nós temos tambores afro e a USP!

E os 250 milhões de habitantes, pessoas como nós, que trabalham e levam seus filhos à escola? Se nossa opinião tupiniquim é tão importante, por que a deles não seria?

Para o brasileiro, faz de conta que eles não existem. Afinal, só quem aparece nos jornais é o Bush, como se fosse o imperador do nada. A imagem mais próxima que temos do que seja um cidadão americano é a de um vendedor de seguros decadente, um playboyzinho de High School ou um mauricinho executivo de Wall Street, todos estereótipos cinematográficos bestas. Os EUA, na cabeça de um brasileiro, são uma cosmogonia. “No quinto dia, Bush criou a hipótese do casamento gay. No sexto dia proibiu. No sétimo descansou”.

[Texto publicado no Mídia Sem Máscara]

~ by Evandro Ferreira on March 3, 2004.

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