107556051128928820

Pequeno desabafo de sábado de manhã

Hmm. Olho meu futuro e vejo novos ares vindouros. Da última vez que o encarei de frente, ele me disse: “vais apodrecer em uma agência de publicidade até o fim de teus dias”. Dei-lhe então uma rasteira e hoje sou metido a tradutor. Agonizo um pouco menos. Planejar o futuro soa mal aos meus ouvidos. Meu relacionamento com este senhor ranzinza e mal-humorado é um tanto caótico demais para se falar em planejamento. De vez em quando ele me ameaça com suas tragédias lentas de longo prazo, que no entanto são dotadas de uma estranha iminência de acontecer. Tento dar um pontapé nessa urgência discreta que rói a alma por dentro. Consigo e não consigo afastá-la. Presenteado com mais algum tempo antes do porvir, mudo um pouco a direção em que anda o velho ranzinza, e vou acertando o passo aos poucos. Já que tenho que seguí-lo, que outro remédio?

Parece então que a direção tem estado mais estável ultimamente. Só existe um problema, este parcial: minha amada – ser instável por excelência – exige cuidados e carinhos extremos, exibe conflitos e aflições para dar e vender, preocupa-se demasiado com meu/nosso futuro (preocupar-se demasiado com o futuro é um erro grave, é sempre bom lembrar), enfim, dá-me um certo desgosto. Mas eu disse parcial: a vida a dois é um desafio instigante, delicioso e muito belo, de que nem penso em fugir. Foge-se de tudo, menos do amor, que isto é errado, não se faz de jeito nenhum, é feio mesmo. O caminho é longo, o aprendizado a dois é cheio de obstáculos, internos e externos. Um não entende os gostos do outro; grandes amigos de um às vezes são apenas amigos “médios” do outro; um quer todo o tempo do outro, às vezes na hora errada. Em um país como o Brasil, acrescente-se a “exclusão cultural” (não me perguntem o que é isso, leiam meu blog instead) e todos os complexos psicológicos que impedem o indivíduo de lidar com ela. Amigos das mais diversas idades, menos da sua própria, é o que se faz aqui. Então vem o complexo da diferença. Por que não consigo me encaixar na “turma” dos meus semelhantes em idade? Essa pergunta, ela me fez um dia. O que responder? “São quase todos uns bostas”, eu disse. “Fazer o quê?”, completei.

Não tenho todos os amigos que gostaria de ter. Mas gosto de todos os amigos que tenho. Alguns não querem ser tão meus amigos quanto eu gostaria de ser deles. Outros têm hábitos que nem sempre se encaixam perfeitamente com os meus, portanto nem sempre são companhia para mim, ou para ela. Fico meio sozinho, não me importo, ouviria uma música ou leria um bom livro, mas ela se aflige e me chama. Eu vou, mas não adianta, a aflição não diminui.

Acho que assim é a vida. Aflições que nem sempre diminuem, felicidades que nem sempre aumentam, equilíbrio curioso que nem todo mundo entende.

~ by Evandro Ferreira on January 31, 2004.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: