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Está chovendo ininterruptamente há três dias, e eu continuo sem ler jornais. Fui assistir a “Encontros e Desencontros”, aquele filme supostamente sensacional da Sofia Copola. As pessoas que estavam comigo detestaram, em geral. Eu gostei. Entrei no clima do filme, por assim dizer. Viajei na lentidão melancólica com que a diretora descreve a velocidade japonesa. Bill Murray me faz sentir em casa. Assistir a um filme com ele é como chegar em casa depois de uma longa e cansativa jornada, tirar os sapatos, sentar no sofá e dizer olá aos meus pais e às minhas cachorrinhas. Ver japoneses cantando karaokê em uma sala alugada especialmente para isso é como sonhar aqueles sonhos em que você fica inerte diante de um perigo, sem conseguir se mexer, apático e deprimido e aflito ao mesmo tempo. Ainda assim, o filme não é sensacional. É bastante bom, e ponto.

Também fui ver “21 Gramas”. Venci minha relutância em assistir a um filme do mesmo diretor de “Amores Brutos”, um filme tão cruel, tão amargo, tão absurdamente apelativo. Acho que a maior fonte de inspiração do diretor deve ser o mito de Prometeu, o sofrimento eterno, inevitável, que tudo domina e a tudo se sobrepõe. Que outra explicação pode haver para alguém que mata 15 cachorros de uma só vez, no mesmo filme? Um filósofo francês disse que a vida é como uma cerveja: gostosa e amarga ao mesmo tempo. Em “Amores Brutos”, a vida não é uma cerveja. É uma vitamina de bosta com açúcar mascavo e vinagre. Em “21 Gramas” ao menos o diretor amadureceu um pouco e conseguiu mostrar um certo sentido, um certo mistério por trás da vida, que se a torna injusta e cruel, não deixa de lhe conferir bondade também. Os atores estão todos perfeitos, um verdadeiro show de culpa e agonia, mas sempre em busca de algo além, uma superação no verdadeiro sentido da palavra: um ir além cheio de seqüelas, uma cura existencial cheia de cicatrizes profundas. E a fotografia é impecável (como de resto também a de “Amores Brutos”). Primeiríssimos planos do início ao fim me fizeram lamentar ter me sentado na segunda fileira. Valeu Sue, Stella e Henrie pela companhia!

~ by Evandro Ferreira on January 28, 2004.

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