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Há um certo tempo – uns dois anos, eu acho, mas deve ser mais, porque estou ficando velho – encontrei com uns colegas meus do segundo grau. Estava lá eu sentado na mesa, junto com o Agonías (que também foi meu colega de segundo grau), dois deslocados. Tão deslocados que todas as perguntas eram para nós. As coisas que havíamos feito desde o fim do terceiro ano eram extremamente “interessantes” para todos que ali estavam. Uma garota comentou comigo que queria ter feito “mais coisas”. Eu havia contado a ela que fui visitar uma quase-namorada (também da nossa turma) em Porto Alegre, logo depois do fim do segundo grau, depois fiz vestibular para Arquitetura e cursei dois anos, depois fiz parte de um grupo de dança, depois mudei de cidade e de curso. Enfim, eu estava contando a ela todas as coisas que fiz porque não estava satisfeito com o rumo que minha vida estava tomando. Eu passei 8 anos tentando corrigir esse rumo. Acho que consegui mais ou menos (afinal, nunca se está completamente satisfeito). Mas ela não via assim. Ela via como “muitas coisas”. É legal fazer “muitas coisas”. Quem faz “poucas coisas” não é legal. Ela não era legal, porque tinha arranjado um emprego em um tribunal, ia se casar e, provavelmente, virar juíza. Isso era tudo que ela tinha feito em 8 anos. E realmente eu não achei isso legal. Mas, não por causa de um problema, digamos, intrínseco. Não há nada de errado em casar e virar juiz. O problema é que ela não estava satisfeita com isso. Ela via sua vida tomar um rumo que não lhe agradava, mas não fazia nada para mudar esse rumo.

Por que as pessoas fazem isso? Para evitar problemas, eu diria. É mais fácil lidar com o remorso do que com a instabilidade. O remorso, você o esconde embaixo do tapete. Existem vários meios pra isso. Aliás, arriscaria dizer que o mundo é um conjunto de meios de se fazer isso. Você tem um filho, compra um carro, casa, faz um concurso; e sua vida parece ter tomado o rumo certo. Para alguns, esse é mesmo o rumo certo. Mas, para muita gente, para cada vez mais gente, não. Então, lá pelas tantas, procuram um analista.

A outra opção, a minha, é não saber direito o que vai ser da sua vida, não ter dinheiro direito e ser sustentado pelos outros até não sei quando, não conseguir emprego por não ser capaz de fazer teatrinho nas entrevistas de seleção, trocar de área de interesse que nem um louco até encontrar uma de que goste, descobrir que a única área de interesse de que realmente gosta não é economicamente viável, aprender a lidar com isso e escolher uma área de interesse intermediária, ter que ouvir o Paulo Salles dizer que todo tradutor faz isso, ter que concordar com o Paulo Salles!

A diferença entre mim e a garota que virou juíza? Autenticidade, controle sobre a própria vida. Parece que não, não é? Parece que ela é que está com o controle da própria vida, já que tem um salário fixo e muita “segurança” material. Mas, minha visão de controle é a seguinte. Um sujeito que está em cima de um cavalo doido, tentando domá-lo e tendo muitas dificuldades para fazê-lo, este sujeito tem mais controle sobre o cavalo do que um outro que saltasse do cavalo ao primeiro trote que o bicho desse, você não acha? Mas, logicamente, o sujeito que saltou está “mais seguro”.

Para alguns, a vida é esse cavalo doido mesmo. E o pior é que ainda vêm outras pessoas com seus cavalos doidos pra cima de nós! E às vezes nós temos que descer do nosso cavalo doido e subir no dos outros! E às vezes ainda acham ruim: “Sai do meu cavalo doido, seu intrometido!” Ao que respondo: “Eu não! Depois você vem com ele pra cima de mim e me atropela…”

~ by Evandro Ferreira on December 5, 2003.

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