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Esse texto era a minha apresentação no Digestivo, a long long time ago…

Eu

Comecei a ler por acaso. Está certo que nunca fui daqueles jovens impacientes, que alugam “A moreninha” na locadora só pra não ter que ler o livro que o professor mandou. Só não conseguia começar a ler. Depois que começava, quase não parava até terminar o livro. E depois, para o próximo livro, tudo de novo.

Então sou assim. Difícil começar a fazer as coisas, mas depois que começo, não paro mais. É mais ou menos como aquela lei do atrito, na física. Você vai empurrar uma geladeira e ela não sai do lugar, pesadíssima. Mas depois que ela começa a se mover, fica muito mais fácil mantê-la assim. Eu sou a geladeira. Quem empurra? Bem, ultimamente tem sido minha namorada. Mas já foi minha mãe, berrando em meu ouvido, com a “Veja” na mão: “você precisa ler, meu filho, ficar informado”. E o mundo dá tantas voltas que hoje eu digo: “mãe, larga essa ‘Veja’ e vai ler algo que preste”!

Mas essa coisa de ler só começou bem tarde, depois de eu fazer vestibular pra Computação e de cursar dois anos de arquitetura. Depois, larguei tudo e fiquei à toa, dançando “Street Beat” com um grupo de dança, acredite se quiser! Então veio um maluco (sempre seu melhor amigo é um maluco), que leu o Inferno de Dante aos 13 anos, e me deu “O perfume”, de Patrick Süskind. Pirei com aquele sujeito que largou tudo e foi pra caverna, viveu isolado por não sei quanto tempo e desenvolveu uma sensibilidade inacreditável para discernir aromas. Fui embora de Brasília, minha terra natal. Não foi por causa desse episódio que fui, mas sabe que escrevendo agora essas linhas começo a perceber que talvez tenha sido?

De qualquer maneira, fui pra BH em direção a meu amor, minha namorada-esposa-embora-não-de-papel-passado. Cursei publicidade e quis ser designer gráfico porque gostava de fazer o layout das pranchas dos projetos de arquitetura. Adoro design gráfico, mas aí entra minha segunda característica básica: não gosto de ficar por conta do trabalho. Tudo bem, ninguém gosta. Mas eu simplesmente não suporto o desperdício de sair de casa às 9 da manhã e voltar às 9 da noite, sendo que eu poderia produzir o mesmo em 6 horas, se ficasse em casa. Mas são essas as regras do jogo publicitário. Então eu virei juiz do jogo. Ou seja, hoje escrevo sobre publicitários chatos, ao invés de ser um deles. Pena que o juiz não ganha dinheiro como os jogadores. Pensei também em ser free-lancer, mas não suportaria os clientes. Design gráfico é como tentar vender um quadro de Rembrandt a um contador de repartição pública. Você acaba conseguindo vender, mas por um décimo do preço (estou sendo otimista, no caso de Rembrandt) e pelos motivos errados – e depois de muito stress.

Nesse meio tempo dei de cara com os artigos de um sujeito chamado Olavo de Carvalho. Alguns leitores vão dizer: “estava demorando ele falar isso”. A esses não tenho nada a declarar, mas vou continuar declarando!

Então descobri por que até então eu preferia ler literatura. Gostava das aulas de semiótica e sociologia, mas às vezes sentia algo de enfadonho naqueles textos, algo de alienante, como se não tivessem muito a ver com o mundo real. Atribuía isso à minha dificuldade de começar a fazer as coisas, como disse no início. Mas depois percebi que eu não estava errado, realmente existia uma realidade paralela naqueles textos. Então comecei minhas excursões pela biblioteca e descobri que os melhores livros tinham suas fichas em branco. Ninguém os retirava, nenhum professor os indicava.

Então o Olavo serviu para isso. Depois de lê-lo eu não me senti mais envergonhado de pensar como Hamlet: “há algo de podre no reino da Dinamarca”. E pensar como Hamlet é estar sozinho, ou quase. E o que acontece nesse país é que as pessoas pensam o oposto. Acham que pensar como Hamlet é possível sem as consequências que advém de tal posição. O que temos nas universidades hoje são milhares e milhares de pessoas que, juntas, afirmam que há algo de podre no reino da Dinamarca e acham que sabem o que é (e dão tantos nomes a isso que esse simples fato já demonstra que estão erradas). E eu digo com certeza: se tivessem descoberto a verdadeira podridão, não estariam acompanhadas de tanta gente em sua descoberta, pois as descobertas são, por definição, solitárias.

Resumindo. Existem livros ruins e livros bons. E os ruins não são só os de auto-ajuda, mas também aqueles que eu outrora achava que eram bons – como “O capital”, por exemplo. Em segundo lugar, isso não é uma questão de ideologia, mas de verdade e mentira.

Alguém deve estar perguntando: “mas você não está falando de você”. Bem, eu hoje sou isso. Sou essa busca por um conhecimento que preste, geralmente em outras línguas por motivos óbvios. Como tenho 26 anos, a busca está só começando!

E sou também meu amor pela garota que eu tenho, pelas repolhudas (minhas duas cadelinhas fofas e peludas!) e pelas comidas deliciosas, como a japonesa e a baiana. Também sou “Matrix”, “Senhor dos Anéis” e “Guerra nas Estrelas”, mas nunca pelos motivos mais óbvios. Se me perguntarem se “Guerra nas Estrelas” tem conteúdo, vou dizer “sim, se você se der ao trabalho de procurar”. E se me disserem que por isso eu não posso gostar de David Lynch e Luís Buñuel, também não tenho nada a declarar.

E esse texto já está tão longo que nem parece apresentação. É por causa dessa minha terceira característica básica: gostar de me abrir e falar o que penso! Então às vezes parece mal humor, mas acredite, estou sempre rindo de tudo, como todo bom brasileiro!

~ by Evandro Ferreira on November 29, 2003.

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