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Paulo Rónai e a arte de traduzir

Comentando a questão da fidelidade em tradução, Paulo Rónai caracteriza como tradutor mais fiel aquele que transportasse o conteúdo da mensagem original expressa em uma língua estrangeira para a sua língua-alvo; isso sem transportar sua forma, mas antes conformando-a aos “usos, hábitos e regras de sua própria língua”. Assim, segundo o autor, “a fidelidade seria uma obrigação dupla: para com o conteúdo da mensagem e para com a praxe expressiva da língua-alvo”.

As observações de Rónai têm, obviamente, a intenção de lembrar que aquilo que mais dificulta a tradução é o fato de que cada língua é um repositório de meios expressivos de uma cultura determinada. E, assim como diferem as culturas, e exatamente por causa disso, diferem também as línguas entre si quanto a esses meios. Em outras palavras, cada língua tem a sua “cara”, e esta pode variar radicalmente, tornando a tradução, muitas vezes, um processo extremamente complexo e fazendo de seu produto final uma obra que pouco tem da original. Um grande exemplo disso são as alusões que Rónai faz à estrutura gramatical do húngaro.

A conclusão é a de que traduzir está longe de ser um ato mecânico. É, sim, um processo de reflexão, em que o tradutor faz uso de seus conhecimentos para transportar a mensagem de uma cultura a outra, adaptando-a, para que o resultado final seja um conjunto de significantes familiar ao leitor ? e, portanto, diferente do original – mas que ainda transmita a mesma mensagem daquele.

Mas aqui cabe uma outra reflexão. Se o tradutor “transporta” a mensagem de uma cultura a outra, é de se esperar que nela venham elementos estranhos, exóticos, desconhecidos do leitor da mensagem transportada. Rónai então estabalece duas posturas possíveis quando do ato de traduzir: a tradução “naturalizadora” e a “identificadora”. Na primeira delas, o tradutor se presta a “conduzir uma obra estrangeira para outro ambiente linguístico”, o que significa “querer adaptá-la ao máximo aos costumes do novo meio, retirar-lhe as características exóticas, fazer esquecer que reflete uma realidade longínqua, essencialmente diversa”. A outra postura, oposta, é a de “conduzir o leitor para o país da obra que lê”, o que significa “manter cuidadosamente o que essa tem de estranho, de genuíno, e acentuar a cada instante a sua origem alienígena”.

Ora, as duas posturas são na verdade uma só. E se o tradutor adota uma delas em detrimento da outra, isso denota antes uma falha do que uma inevitabilidade. O erro está em pensar que duas realidades longínquas são “essencialmente diversas”. A rigor, não existem realidades humanas essencialmente diversas. A essência da condição humana é uma só. Por maiores que pareçam as variações, as realidades humanas com que trabalha o tradutor são essencialmente iguais. E o trabalho dele, descontadas as gigantescas dificuldades, é justamente o de “escavar” as duas realidades com que trabalha, até encontrar o que há de comum entre elas, sua essência. O simples fato de que ele, como ser humano que é, consegue compreender razoavelmente bem as realidades das diferentes línguas com que trabalha já é prova de que elas jamais podem ser classificadas como “essencialmente diversas”.

A tradução ideal, portanto, é aquela que traz um certo grau de familiaridade, bem como um certo grau de estranhamento, ou seja, de novidade que requer aprendizado por parte do leitor. Cabe ao tradutor julgar quando o estranhamento é enriquecedor, e quando é mero preciosismo linguístico sem necessidade. É certo que o grau de “naturalização” de uma tradução, na prática, é sempre maior que o de “identificação”, mas não se pode esperar que uma obra traduzida possa ser nem totalmente estranha ao leitor nem totalmente familiar, do ponto de vista linguístico. As duas polarizações devem ser vistas como ilustrativas de situações-limite.

Com o intuito de caracterizar “o tradutor como ele devia ser”, Rónai estabalece também quatro requisitos que ele deve possuir: a) “conhecimento profundo da sua língua-materna”; b) conhecimento da língua de partida; c) bom senso; d) “uma cultura geral que lhe possibilite identificar os lugares comuns da civilização”. Fazendo uso desses três requisitos, o tradutor será capaz de reconhecer os elementos culturais do país de origem do texto, transportando-os em sua tradução. Além disso, será capaz de “desconfiar” de palavras e expressões sem equivalência literal, bem como de saber se a tradução do texto “soa bem” quando lida. No caso do tradutor técnico, alguns dos requisitos acima são menos importantes, dado o alto grau de padronização da linguagem científica. Entretanto, acrescentam-se outros, a saber, o conhecimento teórico daquilo que se chama de ciência e um maior conhecimento dos procedimentos filológicos, principalmente os de composição de glossários e pesquisa de termos ausentes dos dicionários.

~ by Evandro Ferreira on November 27, 2003.

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