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Da necessidade de se aprender inglês

“The Matrix Revolutions não é um filme terrivelmente ruim, mas é uma tremenda decepção”. Assim começa a resenha de Andrew O’Hehir, na Salon.

Primeiramente, vou contar como sempre termino visitando a Salon. Ou melhor, vou contar o que aconteceu desta vez, e isso fica valendo como analogia para todas as outras vezes em que eu quis ler uma crítica sobre algum filme.

Foi assim. Eu gostei muito do primeiro “Matrix”, gostei bastante do segundo (embora menos um pouco que o primeiro) e gostei também bastante do terceiro (ainda um pouco menos que o segundo). Em busca de uma terceira opinião sobre este último, resolvi começar pela (argh!) mídia brasileira. A resenha que saiu no Estadão (14 de novembro de 2003, pg. D10), embora não fosse “terrivelmente ruim”, foi uma “tremenda decepção”. Nem sei como ainda consigo ficar assim (pois nem me lembro da última vez em que li uma crítica interessante sobre algum filme naquele jornal), mas fiquei.

A manchete “‘Matrix Revolutions’ e o anel mítico de Frodo” anuncia uma correspondência inusitada e surpreendente entre Matrix e “O Senhor dos Anéis”. O leitor, no caso eu, foi em busca da dita cuja. Para tanto, tive de andar por sobre as águas da superficialidade jornalístico-sociológico-cultural, tal qual um patinho feio ingênuo a buscar peixes nas profundezas. Felizmente, a superficialidade traz em si essa intrigante “vantagem”, a saber, favorece a leitura dinâmica. Foi assim que passei pelo primeiro e pelo segundo parágrafo. “O primeiro encontro de Trinity com a nova Oráculo em Matrix Revolutions enseja um diálogo cifrado sobre identidade e mudança.” Ôpa! Vida inteligente no jornalismo cultural brasieliro! pensei eu. Mas logo percebi meu engano. A observação buscava ilustrar o seguinte. Os diretores do filme estão sempre atentos às mudanças e as incorporaram ao seu filme à medida que foi sendo produzido. Observação bobinha e que, no entanto, era o cerne da resenha, já que, logo adiante, o exegeta revela seus “achados”: (a) a atriz que fazia o papel do Oráculo morreu durante as filmagens; (b) “O Senhor dos Anéis” foi lançado no cinema. Ambos os eventos foram incorporados ao filme. O primeiro, por meio do diálogo supra-citado, o segundo… bem, quanto ao segundo, vou citar as palavras do próprio resenhista: “Um pouco mais tarde, em Matrix Revolutions, justamente o Oráculo fala das trevas que se aproximam e que certamente serão triunfantes, se Neo, o personagem de Keanu Reeves, fracassar. Por um momento, o espectador que realmente prestar atenção ao diálogo ficará em dúvida – o Oráculo está falando de Matrix ou de O Senhor dos Anéis? Porque tudo o que o Oráculo diz sobre Neo, Matrix e as trevas que se avizinham poderia muito bem aplicar-se à mítica busca do anel por Frodo.”

Diante disso, eu fico pensando. O que passa pela cabeça de um jornalista que pensa que analogias tão triviais dão uma reportagem? Meu Deus! Para começar, só para começar, as trevas decorrentes do fracasso de Neo já eram uma obviedade desde o primeiro filme (não foram algo incorporado ao longo da produção). Mas o pior de tudo é achar que dois filmes são surpreendentemente análogos só porque uma “era de trevas” virá se o herói fracassar. É como dizer que as vidas de dois homens são surpreendentemente ligadas uma à outra porque ambos têm mãos e pés. E olha que eu nem mencionei a retórica pueril (“o Oráculo está falando de Matrix ou de O Senhor dos Anéis?”).

No resto do texto, temos a habitual crítica a Hollywood e a também habitual referência à quantia arrecadada nas bilheterias do filme, coisas que só a mídia brasileira ainda acha que são notícia. Ah, já ia me esquecendo. O resenhista também diz que Matrix faz o espectador pensar; que Cornel West é o guru dos diretores do filme e que Neo simboliza o Predestinado de que West fala em suas teorias. Resumindo, o texto é composto por uma analogia pobre e superficial, comentários sociológicos bobinhos sobre os elementos que influenciaram os diretores na produção do filme, a já manjadíssima crítica a Hollywood (que costuma ser usada tanto para incluir como para excluir o filme resenhado), o também batidíssimo comentário sobre bilheterias e mais duas ou três observações óbvias ululantes.

Pior só mesmo a resenha da Folha de S. Paulo (Ilustrada, 04 de novembro), em que Sérgio Dávila diz que o último filme é “um emaranhado de cenas sem conexão que mal esconde o objetivo de sua existência: dar um ponto final a todos os plots e subplots que foram criados até agora. Como o último capítulo de uma novela das oito.” Diz ainda que “o anterior, ‘Matrix Reloaded’, que estreou em maio, era um tributo à Doutrina Bush, como se o roteiro tivesse sido escrito por Paul Wolfowitz, o secretário adjunto de Defesa dos EUA. O que no primeiro encantava pela discussão entre o real e o virtual, com pitadas que iam de Jean Baudrillard à filosofia oriental, passando pela Bíblia e pelos clássicos gregos, no segundo era pau puro, militarista e com ecos do pior de ‘Guerra nas Estrelas’.”

O jornalismo brasileiro vai mal até na arte de falar mal. Há verdade na menção aos plots e subplots. Mas dizer que o “emaranhado de cenas” é “sem conexão” não passa de conversa fiada de boteco. Além disso, alguém precisava avisar o resenhista de que também houve guerras na Grécia Antiga. E, o mais importante de tudo, alguém precisava falar por aí que Matrix é muito mais que uma discussão entre o real e o virtual. E mesmo que se resumisse a isso, resenhar um filme é muito mais que enunciar seu assunto central, dizer que Neo é o Predestinado ou qualquer outra obviedade do tipo. Ah, já ia me esquecendo. Um terço do texto foi dedicado a piadinhas com o fato de que as continuações foram piores que o primeiro filme.

Por tudo isso é que eu terminei onde sempre termino, na mídia estrangeira. O texto da Salon discute aspectos do roteiro, temas filosóficos, consistência dos personagens e da narrativa, no filme e ao longo da série. Os críticos brasileiros não discutem nada disso. Mas só um parágrafo do texto já vale mais que todas as resenhas brasileiras:

“Estes diretores são ambiciosos e tentaram fazer algo grandioso. Tentaram manipular um vasto repositório mítico-cultural que abrange o Novo Testamento, J.R.R Tolkien, C.S. Lewis, ‘O mágico de Oz’, teoria crítica comtemporânea, políticas de esquerda e ‘Tristão e Isolda’. Mas isso não quer dizer que a coisa toda funcione no final. O que há de melhor em ‘Matrix Revolutions’, além das provocativas cenas iniciais na estação de trem, envolve um bando de personagens – que, basicamente, nunca vimos antes – lutando em absurda desvantagem pela sobrevivência da raça humana, enquanto Neo vagueia por uma terra de desenho animado, estilo ‘2001’-com-pitadas-de-Frodo-vai-a-Mordor, em busca de grandes respostas (as quais, por sinal, terminam por se revelarem quase tão bobas quanto as do infeliz ‘Missão: Marte’, de Brian De Palma).”

Existe uma pequena diferença entre a crítica ferrenha das resenhas americanas e a das brasileiras. Naquela você enxerga o filme de que se está falando (com seus personagens, sua narrativa e sua mensagem), nesta você enxerga o hall e os corredores do cinema, com eventuais espiadinhas pela porta da sala de exibição. E enxerga também Hollywood, professores universitários “polêmicos”, a vida dos diretores e dos atores e até George W. Bush!

Alguém pode dizer, em defesa das resenhas que critico, que o espaço para se escrever em um jornal é bem menor que o de uma revista eletrônica como a Salon. Mas isso não serve de desculpa. De 3099 caracteres de texto, Dávila, da Folha, gastou 1219 fazendo piadinhas que comparam o declínio de qualidade ao longo da série Matrix com os dois governos de Clinton e a vida de Puff Daddy (este “original e talentoso” no início, segundo o exegeta). No Estadão, Luiz Carlos Merten gastou, de 3451 caracteres, 770 pra dizer que Neo é o Predestinado, que Cornel West fala de predestinados em suas teorias, que Hollywood, em geral, faz filmes sem conteúdo e que Matrix tem muito conteúdo. Como se vê, só novidades que ninguém sabia! Além disso, gastou mais 364 caracteres para dizer quanto o filme já arrecadou e até para fazer uma comparação com outro – o de Jim Carrey (“O Todo-Poderoso”) – o que totaliza um terço do texto, com comentários secundários que deveriam ser cortados de uma crítica um pouco mais séria e tão desprovida de espaço físico de impressão.

E olhe que eu nem escolhi um texto que falasse bem do filme. O resenhista da Salon não gostou do filme, mas ainda assim soube analisá-lo com respeito e apontar seus pontos altos. E este é outro defeito do jornalista brasileiro. Ele só sabe analisar um pouco melhor o filme de que gostou. Se não gostou, preenche a maior parte do texto com piadinhas e comentários secundários.

Comentário à parte: “Matrix Revolutions”, na Folha de S. Paulo, ficou com uma estrela. Isso significa que é pior que “Lisbela e o Prisioneiro”, que, segundo o Estadão, merece duas.

Diante de tudo isso, meus amigos, eu só tenho um conselho a dar para quem quer ler sobre cinema. Aprendam inglês!

P.S.: Há um erro grave que me esqueci de apontar na resenha de Sérgio Dávila. Referindo-se à narrativa de “Matrix Revolutions”, o jornalista menciona o seguinte, sobre o personagem principal, Neo: “livre, ele se dirige à Cidade das Máquinas, onde vai pedir ajuda (a “deus?”) para derrotar o vírus agente Smith (Hugo Weaving, sempre excelente), que coloca em risco a própria existência de Matrix.” Acontece que Neo não vai pedir ajuda, mas oferecê-la. Conforme revela o próprio diálogo do filme, Neo é o único capaz de exterminar Smith.

~ by Evandro Ferreira on November 22, 2003.

One Response to “106950993391612955”

  1. olha eu gostaria de saber porque tudo vem dando errado pra mim e pro meu namorado nao conseguimos ganhar dinheiro e tanbem nos andamos brigando muito nao quero sofrer mais nao

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