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Pequeno relato

O debate de Olavo de Carvalho com Alaor Caffé Alves no Largo São Francisco terminou com este último invocando o poder institucional de professor da faculdade onde se travou o debate, para fugir ao mesmo. O professor alegou que não aceitava ser desmoralizado e ofendido em sua “casa” (sic!) e se retirou, enquanto militantes anacrônicos entoavam o coro “alerta, alerta, alerta aos fascistas, a América Latina será toda comunista”.

Diversas alegações de Olavo de Carvalho, mesmo fundadas em bibliografia citada e até em livros apresentados no local (levados por ele), foram consideradas psicóticas e conspiratórias. Exemplo disso foram as risadas que Alaor deu quando Olavo de Carvalho afirmou que Lord Keynes era um agente a serviço da KGB.

O debate começou bem civilizado, com o professor Alaor expondo os fundamentos do marxismo e explicando a dialética materialista que, segundo a interpretação corrente, refere-se a uma espécie de “materialismo espititual”, melhor definido por algo como “ação humana no mundo”. A coisa começou a descambar depois que o professor Olavo introduziu o conceito – inteiramente novo – de marxismo como cultura no sentido antropológico do termo e expôs o fato inegável de que a “burocracia virtual” (os aspirantes ao poder estatal) foi a classe que fez todas as revoluções da história. Corajosamente, o professor Olavo falou sobre a redoma de vidro que isola o Brasil de bibliografias as mais importantes, observando que o próprio professor Alaor e os alunos ali presentes estavam dentro dessa redoma. E isso era demonstrado pelo fato de que as informações que ele introduzia naquele exato momento estavam soando absurdas aos ouvidos de seu interlocutor e causando risadas na platéia. Ironias de Olavo sobre a eficiência do regime comunista em matar pessoas de fome não foram interpretadas como tais nem pelo professor Alaor nem por grande parte da platéia, o que explica as acusações de fascismo no final. Olavo também afirmou que o objetivo mesmo da faculdade em cujo interior estávamos naquele momento é formar grande parte da classe que chamou de burocracia virtual. Fundou isso em uma estatística que mostra que apenas 2% dos alunos que se formam em uma faculdade vão ser empreendedores.

Além disso, o professor Olavo expôs a charlatanice de Marx, comentando sua distorção das fontes em “O Capital” e diversas outras desonestidades. Desmentiu também a explicação da história pela sucessão de modos de produção que geram internamente suas próprias contradições. Em resposta, o professor Alaor disse que “não era por aí”, que não era de bom tom ficar chamando autores de charlatões, principalmente se os mesmos estão mortos e não podem responder à acusação. Olavo então observou que o conceito de fraude intelectual existe e configura um problema da maior seriedade.

O resto do debate foi marcado pelo discurso populista por parte do professor Alaor, que mais parecia um político do PT em campanha (tanto pelo conteúdo de seu discurso como por sua retórica e sua oratória). O professor da USP ficou reafirmando cada vez mais a impossibilidade da distribuição de renda como expressão de que o capitalismo já demonstra as contradições internas que levarão à sua superação. De nada adiantou Olavo lembrar que milhares de marxistas vêm afirmando isso desde o século XIX. Também não adiantaram de nada as observações de Olavo, fundadas em estatísticas, que mostravam que os países onde o mercado é menos controlado são aqueles onde há menos desigualdade social.

Enfim, prevaleceram as idéias de “esperança” e “utopia”, ao invés de uma visão responsável e científica da ciência política e do capitalismo como um mecanismo que, se não é ideal, é o melhor que temos. Olavo afirmou que é psicose pura a idéia de jogar fora o mercado em prol de um ideal de democracia participativa, de aplicação infinitamente mais complexa que a já complicada democracia representativa que temos hoje (e que levaria a burocracia estatal e institucional a um crescimento absurdo). Some-se a isso o fato de que os exemplos históricos do socialismo são todos desastrosos. Por trás de tudo isso, estava a refutação filosófica do marxismo, teoria que, ao mesmo tempo em que afirma o materialismo (entendido como produção e ação humana no mundo) como critério fundamental de análise do homem, quer se excluir desse mesmo critério, afirmando que todos os socialismos deram errado porque não foram “verdadeiros”, não refletiam as verdadeiras… idéias socialistas.

O evento foi, por assim dizer, impagável. E vai dar o que falar, com certeza. O professor Olavo está de parabéns por sua coragem, seriedade intelectual e extrema habilidade em lidar com uma situação-limite sem perder a oportunidade de desmentir dezenas de mitos em relação aos mais diversos assuntos de economia, política e filosofia. Acabou não falando muito sobre direito, preocupado que estava em fazer o mais importante: derrubar o marxismo em sua base, para tentar mostrar o quão inútil é tentar encontrar pontos positivos em uma filosofia absurdamente insana e fraudulenta. Está também de parabéns o professor Alaor, por mostrar tão perfeitamente o que é o marxismo: uma cultura radical, emotiva e volátil escondida sob uma máscara inicial de moderação e sensatez. Pena que fez isso com seus próprios atos, constituindo-se em exemplo vivo, em vez de analista teórico.

É uma pena que debates desse tipo não ocorram com freqüência. A defesa acalorada de idéias em uma contenda é um fenômeno com o qual os brasileiros não estão acostumados. Nós não estamos, de maneira alguma, prontos a encarar o tão cultuado pluralismo de idéias, muito menos a admitir que ele às vezes leva as pessoas a desentendimentos graves. A diversidade aqui só é aceita com a condição de que as idéias não se diferenciem em seus aspectos fundamentais, mas apenas nos secundários.

Peço desculpas se não comentei mais a fundo as afirmações de Alaor. É que acho perda de tempo e prefiro remeter os interessados à leitura da “Ideologia Alemã” e à rememoração das aulas de história assistidas no segundo-grau, em que a “superestrutura” era explicada pela “infra-estrutura”. Foi basicamente isso que Alaor defendeu.

~ by Evandro Ferreira on November 20, 2003.

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