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Vou falar. Adorei “Liga Extraordinária”. Tudo bem, o final é meio besta. Mas eu gostei do filme. Tem um toque de Indiana Jones, uma atmosfera de mistério, um pouco de literatura, e um pouco de auto-ironia para deixar bem claro que a literatura do filme é de araque. Gosto de gibis. E sei que a adaptação da linguagem deles para cinema não é moleza (vide o desastre que é “Demolidor”, que só achei divertido porque conheço o gibi e sou muito tolerante, ou melhor, não sou um nerd preciosista).

Auto-ironia foi a palavra que eu encontrei para designar uma qualidade que muito me agrada em um filme. É a habilidade de rir de si mesmo. Se usada em doses ideais, ela pode se tornar uma qualidade decisiva. Veja “Matrix”, por exemplo. Você vê aquelas lutas e tem vontade de rir, mas ao mesmo tempo acha sensacional e misterioso o clima do filme. Isso é a auto-ironia. É engraçado, mas ao mesmo tempo é sério, portanto, não é pretensioso. Se ficar um pouco sério demais ou engraçado demais, pode ser que se ponha tudo a perder.

Não preciso nem dizer que a maioria dos críticos não consegue enxergar a auto-ironia. Daí, por exemplo, o “Liga Extraordinária” estar com apenas uma estrela nas páginas do Estadão. Já “Matrix” escapou da mono-estrela, por outros motivos, a saber, seu pezinho nas teorias prafentex, muderninhas, baudrillardinhas, semiotiquinhas, itaú-culturaizinhas. Aliás, o pessoal do Itaú Cultural acha que “Enter the Matrix” é o que há de mais moderno em matéria de videogame de última geração (vide a última esposição, cujo tema era o videogame e onde o Playstation 2 estava representado única e exclusivamente pelo referido jogo, um dos piores disponíveis para o console). Enquanto isso, a meninada se diverte (e eu também!) jogando outras coisas completamente diferentes. Mas essa é uma outra história.

Uma coisa curiosa é que hoje em dia não se pode mais fazer filmes de ficção pura. Os críticos não gostam de fantasia. Eles sobretudo não gostam de pessoas pulando de alturas irreais e fazendo coisas irreais, a menos que as tais pessoas sejam orientais (“O Tigre e o Dragão”) ou que se deixe bem explicado o motivo. Em “Matrix” pode, porque afinal aquilo é realidade virtual. Em outros filmes, não pode. Fico imaginando um crítico roendo-se de ódio ao ver heróis saltitando sobre prédios (“mas como pode? Isso vai contra a lei da gravidade”)!

~ by Evandro Ferreira on September 22, 2003.

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