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Um Sonho

Um dos meus sonhos irrealizáveis é trabalhar na redação de um jornal que só tivesse o caderno cultural. Para que política, páginas policiais, notícias locais de projetos comunitários? Tudo bobagem! Bem, talvez devesse existir um caderno de informática também…

Mas não pararia por aí. Nesse caderno cultural “monopolista”, a seleção de pautas seria invertida. As “novidades” ficariam em último lugar. Os lançamentos de livros escritos recentemente dificilmente seriam divulgados; as peças de teatro escritas por novos autores ou “re-interpretadas” a partir dos antigos ficariam de fora. Os filmes obedeceriam a um critério rígido de seleção, que poderia ser um modelo sofisticado de julgamento de qualidade, desenvolvido a partir da “presença de conteúdo”, ou seja, quanto mais “experimental”, mais chances de ser cortado. Nada de Godard, nada de asiáticos pretensamente profundos, nada de francesinhos niilistas e tagarelas, quando muito uma Juliette Binoche, só para servir de colírio.

Tudo isso tem um motivo bem óbvio: a tal inversão de que falei nem pode ser chamada assim, pois hoje a “novidade” deixou de ser o que está sendo criado agora. Novidade hoje são os dois milênios de civilização ocidental que estão atrás de nós. Façamos uma pesquisa imaginária pelas universidades. Os sujeitinhos sabem quem é Arnaldo Antunes, mas não sabem quem é Dante Alighieri; sabem os nomes de vídeo-artistas descolados, mas nunca ouviram falar de Borges; cultuam Zeca Baleiro e nunca viram Alessandro Marcello mais gordo. Essa é a triste realidade: pergunte quem leu Charles Dickens ou Samuel Johnson, Cervantes ou Kafka… Todos leram “A Moreninha”, “O Cortiço” e “O Ateneu”. Literatura de primeira linha! Viva a cultura nacional!

Voltando ao jornal… Manchete de capa: “Tradução de Os Demônios, de Dostoievski, pode ser encontrada nos melhores sebos”. Segue uma matéria enorme, falando sobre o autor e o livro, uma resenha e um ensaio sobre o significado da obra nos dias de hoje, ops, quero dizer, nos dias de sempre, fora dos dias, na eternidade… Lá dentro do caderno se encontraria uma seção especial sobre livros fora de moda, outra sobre clássicos que não foram reeditados por ninguém e ainda uma outra sobre livros que não foram traduzidos para o português. Os classificados poderiam ser todos preenchidos com anúncios de cursos de línguas, formando o Caderno T (de “Tome vergonha na cara”).

Em meus sonhos, o jornal seria lançado com uma enorme festa e inauguraria uma nova era, em que os acontecimentos do cotidiano deixam de ter importância. O leitor simplesmente não quer mais saber das declarações do Presidente da República, nem dos deputados, senadores, trabalhadores, donas de casa, consumidores indignados, nada, nada, nada! Só coisas velhas, que aconteceram há mais de cem anos, há mais de mil anos. O leitor não quer mais saber das últimas tendências do São Paulo Fashion Week. Em vez disso, quer se vestir como Luís XV ou algum imperador romano.

Diante disso, todos os outros jornais iriam à falência, nenhum político apareceria mais nas páginas dos cadernos de “Nacional”, pois estes não mais existiriam (os cadernos!).

O modelo só ficaria “desgastado” quando as notícias e resenhas sobre livros antigos, peças antigas, filmes antigos e compositores antigos de música deixassem de ser novidade para os leitores. Como se vê, demoraria muito tempo. Pelo menos uns 500 anos!

Inspirado nesse jornal, um escritor anônimo escreveria um poema épico em versos alexandrinos e recriaria do zero a literatura brasileira. Tudo o que fora escrito antes seria esquecido, exceto Machado de Assis, Guimarães Rosa e Olavo Bilac. Uma nova civilização surgiria, e teria como obra fundadora o tal poema épico, que traria os ideais de liberdade, individualidade e eternidade. Aqui nos trópicos, nasceria pela primeira vez uma coletividade hostil às idéias de temporalidade e historicidade. Toda vez que fosse pronunciada a palavra “acontecimento”, as pessoas torceriam o nariz e cuspiriam, em sinal de desaprovação. Engajamento seria um vocábulo morto. Sociologia seria o nome de um joguinho para crianças de até 6 anos de idade e Antropologia, um passatempo em forma de peças de madeira e osso, para recém-nascidos e loucos. A menor unidade de tempo seria o mês.

Só não consegui descobrir como tudo isso se conciliaria com a mais alta tecnologia e o mais veloz acesso à Internet. Preciso elaborar mais esse meu sonho…

~ by Evandro Ferreira on July 15, 2003.

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