94156976

Julián Marías dizia que a filosofia se alimenta da análise das mentalidades. A partir de uma observação minuciosa de como pensam as pessoas de sua época (e de como elas vêem o mundo), o filósofo recolhe o material necessário à sua reflexão.

Eu, como candidato a filósofo, já comecei a fazer isso. Preimeiro, observo o culto do acaso, após a derrocada da religião, ao menos nas mentes dos jovenzinhos descolados da MTV, os quais são o futuro do nosso país segundo a Marilena Chauí, que há muito começou a investir no rap. Como ilustração desse culto, cito uma letra do Titãs. “O acaso vai me proteger enquanto eu andar distráido” é o refrão de uma música até interessante, que se chama Epitáfio e simula os pensamentos de um morto sobre sua vida passada. Este é um velho clichê, o das “memórias póstumas”, dos arrependimentos, da “vida que podia ter sido e que não foi”. Mas é realmente muito expressivo que a tudo isso seja apresentada uma “solução” muderninha: a proteção do… acaso! Sinal dos tempos.

O outro exemplo é o da infiltração do multiculturalismo banal e imbecil, uma mentalidade que encara o “terceiro setor” como uma dádiva do século XXI e elege a mistureba de culturas na mente vazia de uma geração inteira como a mais maravilhosa das festas da fraternidade universal (enquanto isso, os orientais riem da nossa cara e derrubam prédios inteiros, mas isso é só um detalhe para os alegres desse mundo, os pombinhos da paz que se vestem de branco e abrem sorrisos após serem metralhados). A ilustração de tudo isso é um texto que encontrei atrás de uma embalagem de tinta para cabelo. Vejam se estou mentindo:

“As cores do mundo

Ela poderia estar vestindo uma saia amarelo-fosco com detalhes africanos e uma blusa de seda rosa, que lhe dá um leve toque oriental. No pescoço um colar rústico de prata, com pequenas pedras coloridas. Um batom vermelho-acobreado define seus lábios. Os cabelos na cor que ela “sempre” desejou – pelo menos para esta semana! E o que estaria ela fazendo? Talvez teclando seu computador, no escritório de uma ONG. Ou quem sabe, em um pub, com um drink azul-translúcido em uma das mãos. Enquanto bebe, conversa em inglês com um velho amigo indiano. O assunto é o verde da Amazônia, o vermelho da bandeira chinesa, o céu alaranjado de Marrakesh e o azul profundo dos mares do Caribe. Elas fala sobre as Cores do Mundo. De um mundo que não é só seu. Que é de todos. E para todos. Ela sabe muito bem disso. E continua a sua conversa”.

É mole?!

~ by Evandro Ferreira on May 11, 2003.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: