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Traduzir o que não está lá

Estou fazendo um curso de tradução. Está sendo bastante proveitoso, apesar da enxurrada de conjunções que estão despejando sobre os alunos. O curso é bem prático e são feitas muitas traduções em sala de aula, com a ajuda do professor, que sugere muitas alternativas e “melhores maneiras” de traduzir (ou verter) trechos e parágrafos.

Por enquanto estamos realizando apenas versão (que é, pra quem não sabe, a “tradução” do português para o inglês). Mas já me vieram com um homework que é uma pérola. Um texto chamado “Literatura Brasileira”. Veja o trecho:

“Não se pode dizer que, nos tempos coloniais, houvesse ainda uma literatura brasileira (…)”

Hmm… Mais cacofônico e ambíguo que isso, impossível. Presumo que a literatura brasileira (entenderam bem? Já, já, já…) tivesse acabado então. Isso é bem mais pessimista que as coisas que eu costumo ler! A literatura brasileira nasceu e morreu antes do período colonial! De agora em diante, se alguém vier falar dela comigo, eu vou pegar meu exemplar de “Os Lusíadas” e vou dizer: “isso é literatura brasileira! O resto é farsa!”

Os textos que recebi até agora para verter são, em geral, sofríveis. Mas creio que isso seja uma tática para que os alunos se acostumem com o analfabetismo gramatical brasileiro, que é crônico e generalizado. Em outras palavras, já estou vendo que a profissão do tradutor muitas vezes consiste não só em traduzir, mas em corrigir e melhorar os textos. Isso se ele não for também um picareta, como ocorre constantemente.

Enfim, quando fui verter o trecho, tive de traduzir o que não estava lá, que é o que eu ACHO que o sujeito quis dizer (o que aliás, eu fiz muito nos meus 4 anos de faculdade, com trabalhos em grupo). Algo como: “nos tempos coloniais, não havia ainda uma literatura brasileira”. É tão simples, né? Mas o autor, para compor algo tão claro e sucinto, teria gasto horas e horas tentando se esquecer dos seus anos de faculdade, quando aprendeu que as frases devem sempre começar com “Pode-se dizer que”, “É importante ressaltar que”, “Não se pode negar que”, etc etc.

~ by Evandro Ferreira on March 11, 2003.

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