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Desabafo

Hoje passei o dia encaixotando livros. Já são 5 caixas e ainda faltam outras 5. Ah, e encaixotei panelas e talheres também. Uma das coisas mais deprimentes que existem é você abandonar um apartamento pra ir morar em outro. Você leva todas aquelas coisas embora, as coisas que tinham cada uma o seu lugar fixo e supostamente vitalício. Você pensava que tinha alguma raiz nesse mundo, mas de repente (re)descobre que não passa de um mortal desprezível que pertence a lugar nenhum. E todas as coisas que você usou tantas vezes (as panelas e as travessas que você usava para fazer uma massa para os amigos no fim de semana) e que sempre estavam no mesmo lugar, de repente essas coisas estão em sacolas e vão para um outro lugar totalmente diferente, criar novas raízes ilusórias.

Tudo bem, estou exagerando. Afinal, é sempre bom mudar para um lugar melhor e mais promissor. “Pense no futuro e nas coisas novas”, alguém dirá. Mas não consigo parar de pensar em como é triste viver em um lugar por anos e anos e depois vê-lo vazio, como num romance do García Marquez.

Mais triste ainda é fazer planos que depois não dão certo. Quando eu vim pra BH, tinha os maiores sonhos, gostava de andar na pracinha aqui perto de casa com a minha namorada-mulher-esposa! Meus pais compraram duas cadelinhas lindas e fofas e nós nos apaixonamos por elas! Então eu entrei na faculdade e não consegui fazer um amigo sequer. Minto. Fiz uma amiga (é você mesmo, Maria Helena, se é que você ainda lê esse blog). Mas não convivo normalmente com nenhuma das pessoas que conheci. As pessoas aqui são estranhíssimas, principalmente na faculdade de comunicação. Fiz mais amigos no curso de italiano do que na faculdade, onde só havia panelinhas de jovenzinhos descolados (de diversas categorias) e preconceituosos, doidos para rotular as pessoas. Como nenhuma das panelinhas conseguiu me rotular, fiquei quase sozinho mesmo. Lembro-me do dia em que encontrei um “videomaker” da minha sala em um restaurante indiano alternativinho frequentado por clubbers, gays e vegetarianos. Ele não conseguiu se conter e disse “Evandro? Você por aqui?”. Ou seja: você, o intelectual CDF, frequentando esse lugar? Como pode? Cada um deve frequentar os lugares que se encaixam em seu perfil…

Assim é BH!

Agora estou saindo daqui. Levo boas recordações e uma certa mágoa da população, que não parece mostrar sinais de ter evoluído muito desde os tempos em que jovens talentosos como Drummond iam embora desiludidos para o Rio e São Paulo. Aqui não é lugar de gente que escreve e lê, a não ser que se encaixe no perfil de intelectualzinho feliz que gosta de vídeo-arte e poesia concreta. Nada contra os que não lêem nem escrevem. Estes são felizes aqui; enchem-se de amigos e saem pelos bares a tomar chopps deliciosos de fabricação própria, a R$1,90 a taça! Mas pra mim não dá mais. As cadelinhas fofas estão em Brasília (ai, que saudade!) e meu amor está em São Paulo (e a praia está lá pertinho!). E lá tenho até amigos virtuais, veja só que coisa! Espero que se tornem amigos reais, juntamente com a meia dúzia de mineiros desiludidos que já conheço lá também.

Enfim, gostaria de deixar aqui o meu latido para a Popy e a Camila, minhas duas cadelinhas fofas que foram embora com meus pais para o Planalto Central. Eu sei que vocês duas não sabem ler, mas ficam aqui essas palavras para uma outra encarnação talvez humana, quando vocês serão capazes de entender o quanto eu amo vocês duas, sua cagonas, mijonas e barrigudas!

~ by Evandro Ferreira on February 5, 2003.

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