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Não me conformo com uma coisa. Tolkien não gostava que se tirassem lições de moral de seus livros. E, no entanto, cada parágrafo deles está cheio de lições de moral! Tudo bem, são lições refinadas e talvez então ele estivesse querendo dizer que não queria moralistas baratos usando sua obra como tábua de regras. Mas não me lembro de ele ter feito distinção entre moralistas baratos e filósofos morais refinados. Além disso, eu faço o que quiser com a obra dele, e ele, se quiser, que se levante da tumba para reclamar! Não posso deixar de comentar a passagem de “As duas torres” em que o rei diz algo como: “Como as coisas chegaram a este ponto?”. Essa é uma frase que resume sutilmente todos os aspectos do processo histórico. Você não tem controle sobre ele e então ele vai-se desenvolvendo e ficando cada vez pior (por que nunca fica melhor? seria uma outra perguntinha pentelha…). E então você precisa tomar uma providência, mas a situação já chegou a um ponto que parece tornar inútil qualquer medida possível. Então você toma a medida (o Rei a tomou) e ela é ridícula. Ainda sobra uma esperança de que ela dê certo e é pra isso que serve o mito de Tolkien: para mostrar que o improvável pode dar certo. A diferença do mito para a realidade é que nesta o indivíduo acaba desistindo diante do improvável (mesmo se ele for a única opção de ação, o sujeito desiste e morre, ou outros morrem por causa dele). Lição (e Tolkien se sacode – revoltado – na tumba): para um fatalista, o improvável torna-se impossível. Parece pouco, mas isso é tudo. Diante do fato de que há 6 bilhões de pessoas no mundo, que outra qualificação se pode dar aos resultados de nossos atos individuais senão a de improváveis?! Diante disso, se formos fatalistas, não agimos.

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Sabe qual é o problema desse tipo de texto? Pode ser “usado para o mal”. Sempre penso nisso quando escrevo: meu texto está servindo para algumas pessoas inteligentes e para outras pessoas idiotas. Quero dizer, e se um petelho ler o texto acima e disser: “realmente, não devemos ser fatalistas; ainda podemos impedir que os yankees nos dominem! Abaixo a ALCA! Viva o Lula! Fora FHC!”. AAAAAARRRRGH!!! Será que não era melhor eu ficar calado?

~ by Evandro Ferreira on January 16, 2003.

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