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Minha paciência diminui rapidamente. Tenho muita, mas difícil é controlá-la certos dias. Sinto uma aflição, uma vontade de encolher e ler. Os mais perfeitos poemas, não os suporto se não forem isolacionistas, doloridos, de uma intensidade contida apenas pela página.

Uma voz me grita, me chama, pergunta, quer saber coisas, quer companhia, mas não me serve, porque companhia agora, só aceitaria uma que está longe e que me quer também. Não me serve e não me deixa em paz. Como é difícil ficar só! Todos querem sempre dizer coisas, ouvir coisas, planejar o que comer, beber, fazer. FAZER. O verbo que me irrita mais vezes deve ser esse. O que há de especialmente interessante em fazer coisas? Sempre se fazem coisas, e ainda assim as pessoas se preocupam em não deixar de fazer coisas.

Quero… ou melhor, NÃO quero. Nada. Querer ficar aqui fechado nesse quarto, calado, mudo, silencioso, sem comunicação, apenas folhas e tinta e essas coisas abstratas e ao mesmo tempo tão existentes. Isso não é bem um querer. Recuso-me a dizer que QUERO ficar em paz. Ficar em paz deveria ser o estado natural que, como tal, não consiste em querer nada, mas em ficar-se como se está. Tudo o mais é querer. Ficar aqui calado é simplesmente existir.

~ by Evandro Ferreira on December 14, 2002.

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