85867330

Hoje encontrei uma ex-colega de faculdade no shopping. Como não poderia deixar de ser, perguntou-me se eu estava trabalhando. E eu disse que não. Que vergonha, né? Estou me sentindo muito mal por não estar trabalhando 13 horas por dia em uma agência de publicidade pra ganhar 1500 reais.

Aliás, tenho uma historinha de agência. Fazia eu estágio em uma agência aqui em BH e estava a folhear a Bravo! certo dia, quando o redator passou por mim e se interessou pela revista. Ficou mesmo muito curioso e me pediu para dar uma olhada. Então começou a folheá-la e eu fiquei conversando com uma outra pessoa. Reparei que ele folheava mais ou menos rapidamente umas dez folhas e depois parava. Então folheava mais umas dez e parava. Cheguei mais perto e vi que ele estava olhando apenas os anúncios da revista. E ele, na maior cara de pau, me disse que a revista era muito legal porque tinha anúncios muito bonitos! Haha! O cara não se deu ao trabalho nem de ler a capa de uma revista que via pela primeira vez. Devolveu a mim e foi se sentar.

Rapaz, eu fiquei mesmo muito bravo com aquele cara (tá bom, eu sei que o trocadilho foi fraco).

Moral da história (1): mais vale um passarinho na mão do que mil publicitários folheando.

Moral da história (2): a Bravo! está cada vez pior, mas ninguém vai ficar sabendo disso; afinal, quem lê a Bravo!

A Bravo! é como o Mais! (até o nome parece!). Quase ninguém lê, mas todo mundo gosta. E quem lê faz que entendeu. Mas vá perguntar ao sujeito o que ele leu… Alguém seria capaz de imaginar uma conversa assim? Algo como:

– Você leu o Schwartz no domingo passado?
– Sim, sim. Achei muito interessante como ele traçou toda a personalidade do brasileiro, através da análise semiótico-linguística da obra daquele poeta nordestino. Como é mesmo o nome dele?
– Não me lembro.
– Nem eu.

Haha! Pensar, nesse país, é colecionar nomes de autores, pequenas teses, eventos culturais e obras em voga. Além disso, as pessoas lêem ensaios de vez em quando, não entendem nada e acham isso normal. Acham que é porque elas não estão acostumadas com a linguagem complicada. Eu também achava isso. E mais tarde descobri que é muito difícil ler o Mais!, porque o que aqueles autores falam simplesmente não tem ligação nenhuma com a realidade. Então o leitor tem duas opções. A mais fácil é familiarizar-se com a realidade paralela em que os autores vivem, uma espécie de Jargolândia Abstrativo-Absurda, e então aderir ao estado de hipnose em que se encontram 90% dos estudiosos desse país, apoiados pela condescendência dos ignorantes que acham que não entendem nada desse negócio de realidade. A mais difícil é descobrir isso. Eu, modéstia à parte, descobri. Mas precisei de um empurrãozão de algumas pessoas que descobriram antes de mim. Mesmo assim, confesso que ainda preciso me esforçar imensamente para descobrir onde se encontra o absurdo de cada ensaio daquele caderno, o que nem sempre consigo fazer.

~ by Evandro Ferreira on December 11, 2002.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: