84397674

Estou sentindo um profundo vazio.

Liguei a TV hoje, mas não consigo assistir nada que não venha de outro país. Acho que estou em perigo de entrar para mais uma “classe” de politicamente incorretos, de fascínoras sociais: a dos que não gostam do Brasil.

Mas, antes que me entendam mal, vou explicar melhor. Eu gosto de sair na rua, conversar com as pessoas, com os funcionários de lojas, com o porteiro. Gosto de conversar com colegas desintelectualizados. Enfim, gosto do senso-comum. Por enquanto ele está vivo. No dia em que terminarem a reforma do senso-comum, terminará a última ligação do brasileiro com a realidade.

Estranho país, esse em que vivemos. Só há duas opções para não se desligar da realidade: ficar andando pela rua o dia inteiro sem conversar sobre política com ninguém; ou simplesmente manter uma distância racional em relação a tudo, desconfiar de tudo, da poesia ao futebol, da literatura à ciência.

Eu me sinto como alguém que vivesse em um estado de suspensão cultural. A cultura do presente fica me espetando o tempo todo. E eu tenho que fingir que não estou sendo espetado e me dirigir à estante onde estão os clássicos. Ou então, se eu quiser um “produto cultural” (argh!) nacional, feito agora, e que preste, preciso fazer uma complexa pesquisa de editoras boas, de autores que conhecem autores que conhecem autores, fuçar aqui, fuçar ali, até descobrir algo que seja bom. E isso cansa. Às vezes eu fico cansado de ter que me cercar de tantos cuidados para não me expor à “lavagem cerebral” das modas culturais bonitinhas, “patrocinadas” pelos professores engajadinhos, espectadores da TV Cultura.

E a política está me dando mais nojo a cada dia que passa. E o engajamento dos jornalistas? O modo como a maioria deles realmente acredita que está prestando um grande serviço à humanidade. Começo a entender aqueles professores que passam a vida enclausurados em um obscuro departamento de estudos clássicos gregos, ou algo assim. Pra que se preocupar? Pra que gastar a vida brigando com quem não quer ver? Há tantos livros pra serem lidos. Será que realmente vale a pena se importar com presidentes, deputados e senadores? Será que eles mudariam tanto nossas vidas se nós não nos preocupássemos tanto com eles? Será que o caos político-social não é resultado da politização geral de tudo e de todos? Será que o poder dos políticos não é diretamente proporcional à quantidade de tempo que gastamos pensando neles e falando deles?

~ by Evandro Ferreira on November 12, 2002.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: