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Tem gente que anda indignada com o fato de o FHC ter um apartamento caro em São Paulo.

Quando eu e o meu (quase ausente) amigo Agonías criamos esse blog, não escolhemos esse nome à toa. Eu, particularmente, acho a ética da indignação uma coisa deplorável. Quando eu digo que estou agonizando, parece que é brincadeira, mas não é. Eu olho para um lado e vejo os políticos semi-analfabetos, corruptos ou bem intencionados, o que quase sempre dá no mesmo, dada a sua ignorância crônica com respeito à política, a filosofia, sociologia e economia. Vejo intelectuais que vão ao exterior, pagam as maiores cifras pelas suas pós-graduações (ou recebem bolsas do nosso bolso!) e voltam achando que inflação não é problema e que o Estado precisa fazer a economia crescer. Aliás, os políticos bem-intencionados podem atee ser piores, pois seus ideais corroem o país estruturalmente, culturalmente, ao passo que os corruptos são pragmáticos e “materialistas”. E olho para o outro lado e vejo cidadãos indignados, que se acham verdadeiros semi-deuses, exemplos de honestidade e pureza, críticos “imparciais” de tudo e de todos na esfera política. Na verdade, invejosos e mal-amados, que sublimam sua pobreza de espírito através de uma recusa da reflexão mais profunda, menos conjuntural.

Acontece que uma hora a gente se cansa de tudo isso. Pelo que tenho visto, normalmente as pessoas se cansam aos 70 anos. Eu me cansei cedo, então, 43 anos antes da hora. Estou agonizando mentalmente, como um doente de cama que olha à sua volta e vê todos os sãos vivendo suas vidas e se sente excluído daquilo. Só que minha agonía é inversa, como no alienista de Machado de Assis. Eu olho à minha volta e vejo as pessoas falando: “Você viu o fulano? Todo ano compra um carro novo!”, ao que o outro prontamente responde: “Que absurdo! Tanta gente pobre nesse mundo”.

Eu me irrito com isso. Não fico indignado. Fico irritado. Indignação implica um sentimento de superioridade e certeza que eu não tenho, embora possa parecer que eu tenha. Eu não tenho certeza de que os ricos não merecem suas fortunas, eu não tenho certeza de que os pobres são coitadinhos, eu não tenho certeza de que a pobreza existe porque existe a riqueza. Enfim, eu não me comporto como se estivesse em meu palanque de cidadão, cheio de direitos e exigências a priori, como um inocente absoluto cheio de constatações indiscutíveis.

Eu não tenho raiva do FHC porque ele conseguiu, no final de sua vida e depois de anos de luta, comprar um apartamento de 1 milhão. Eu não sou de esquerda, não simpatizo com a social-democracia, mas mesmo assim sou capaz de reconhecer que ele é trabalhador e esforçado.

Mas a mentalidade igualitarista distorce tudo. Transforma caridade em indignação. Se o sujeito doa quase todo o seu dinheiro aos pobres, não está fazendo mais que a obrigação. Se não doa, todos ficam indignados e ele se torna um crápula culpado pela pobreza no mundo. Caridade não é isso. Caridade é espontânea, pois é uma virtude do espírito, e não da Constituição ou do Código Civil.

E eu continuo agonizando. Recuso-me a ficar indignado! A caça às bruxas social nunca solucionou e nem vai solucionar nada, pelo simples fato de que não tem nada a ver com amor e boa-fé. E se explicações filosóficas não forem suficientes, basta que se afirme que TODO MUNDO, se tivesse a oportunidade, gostaria de viver em uma casa bonita e cara, o que não significa nada além de colher os frutos de seu trabalho. Só que, hoje, colher os frutos do seu trabalho é proibido. Você tem de trabalhar bastante e depois dar tudo para os outros, porque é assim que o mundo vai melhorar… Os frutos devem ir para os pobres, como manda o socialismo, pois os pobres são coitadinhos. E o bode-expiatório: se o sujeito trabalhou no setor privado e enriqueceu à custa de muito suor, ainda assim é um interesseiro capitalista. Se trabalhou feito um burro para o governo (sim, isso existe! Funcionário público não é “tudo vagabundo” não) e aposentou-se, está mamando nas tetas do Estado. A ética da indignação igualitarista midiático-cidadã – que ataca tanto a esquerda quanto a direita – tudo dilui numa sopa de julgamentos antecipados. Todos os ricos são bonachões exploradores e todos os pobres são esforçados oprimidos. E até os pobres que enriquecem só continuam inocentes se forem jogadores de futebol ou cantores de pagode. Se se tornam empresários, todos se esquecem do trabalho que tiveram para chegar onde chegaram.

A minha agonía se funda em várias sentenças breves, que eu guardo em minha “caixola” e mantenho válidas até prova em contrário. E provas de senso-comum não me bastam. Quero provas filosóficas e científicas. Duas delas:

– Não é errado algumas pessoas serem mais ricas que outras, ainda que sejam muito mais ricas;

– A causa da pobreza extrema de muitos seres humanos não é a riqueza de outros;

Posso estar errado, mas não acho sequer verossímil que o homem tenha gasto séculos de filosofia e reflexão, para que tudo se resuma a tirar dos ricos para dar aos pobres. A coisa é muitíssimo mais complicada que isso.

~ by Evandro Ferreira on November 6, 2002.

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