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As matérias de jornal sobre artistas há muito dão mais ênfase aos posicionamentos políticos do que às obras propriamente ditas. Mas isso está acabando. Não há mais ênfase. Agora é só o posicionamento político mesmo.

A reportagem sobre o artista-plástico Antônio Poteiro, no Estado de Minas de ontem, me deixou deprimido. Não tem foto de NENHUMA obra do fulano. Tem uma foto dele, com uma obra ao fundo, embaçada porque o enquadramento é de retrato.

Aí seguem as opiniões do indivíduo, “superficiais como caspa” (ouvi isso numa reportagem sobre o livro do Sérgio D’Ávila sobre NY!). Por que será que todo mundo tem uma opiniãozinha sobre o mundo inteiro? Será que as pessoas não podem simplesmente ficar caladas em sua ignorância? Por que será que a quantidade de pretensa sabedoria das pessoas cresce em proporção direta com sua ignorância e com a complexidade da política e economia mundiais? Eu, que estudo pra caramba, leio em jornais estrangeiros reportagens sobre as conferências da ONU, sobre a política dos EUA etc etc, não tenho coragem de me posicionar pró ou contra essas intervenções dos EUA. Agora, aparece um velhinho barbudo que “faz potes” coloridos e verborrageia dúzias de clichês em um grande jornal (ou melhor, jornal grande). Será que ninguém percebeu ainda que a GRANDE MAIORIA dos artistas-plásticos não entende quase nada de política e economia, pelo simples fato de que passaram a maior parte do tempo de suas vidas pintando?

Pior, só mesmo padre comunista, que aguenta ler os artigos do Frei Betto que saem no Estado de Minas, com fonte 13 e espaçamento duplo. Tenho uma certeza: quem gosta de ler os artigos do Frei Betto não pode ter capacidade para entender nada mais complexo do que uma equação de segundo grau. No máximo, o conceito de PIB (e olhe lá!).

Transcrevo abaixo algumas declarações do Poteiro. O Subtítulo da reportagem é: “Um dos maiores artistas primitivistas do mundo, Antônio Poteiro, aos 77 anos, fala de sua carreira, do amor pela paz, de ecologia e da situação política do mundo” (aí eu me perguntei: só isso?):

“A destruição da natureza está feroz. O clima está mudando. Pinto a natureza para que o povo tenha lembrança depois. Daqui há 200 anos meus quadros estarão aí para o povo ver como era(…). Quantas áreas viraram deserto no Brasil. Quantos rios secaram (…). O homem só faz as coisas pensando na tecnologia e não lembra dele próprio. Faz um carro para te matar, o gás que coloca na cozinha, se deixar aberto mata todo mundo.”

“Tem um camarada lá nos Estados Unidos provocando quem tá quieto. Vingança não serve. Meus quadros tudo é paz. Pinto o carnaval, a ecologia, às vezes faço isso criticando os estrangeiros que desejam roubar o Brasil”.

Não tenho outra alternativa diante disso senão rezar. Meu Deus, “o gás que coloca na cozinha, se deixar aberto mata todo mundo”. O que fazer diante de um comentário desses? Todo mundo que leu esse texto, por favor, reze também. Mesmo quem não acredita em Deus, pode rezar que está valendo.

~ by Evandro Ferreira on September 15, 2002.

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