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Às vezes fico cansado de discutir com interlocutores esquerdosos. Confesso que não raro me perco em seus giros argumentativos alucinados e anárquicos. Sinto então uma espécie de anestesia traumática que me paralisa por completo, e uma voz interior me diz: “não escreva a réplica, não vai adiantar”. Então fico parado em frente ao computador pensando como seria minha vida se eu tivesse nascido em um país de primeiro-mundo. Provavelmente eu escreveria para alguma revista e ganharia uns 1000 dólares por mês. Gastaria umas 10 horas por semana com esse trabalho e o restante do tempo eu usaria para estudar tudo que eu pudesse, na mais completa tranquilidade. Meu cérebro viaja ao pensar nos momentos felizes que eu passaria junto à mesa de estudo, meu cachorro deitado aos meus pés, uma cantata de Bach bem baixinho ao fundo e um leve aroma de incenso no ambiente. Leria as obras completas de Shakespeare, a Suma Teológica, as Confissões, os diálogos de Platão e as obras de Aristóteles. Depois escreveria ensaios e publicaria um livro. Escreveria para uns sites só por prazer e frequentaria palestras onde – pasmem! – aprenderia coisas.

Então, acordo do sonho e vejo em frente, olhando para mim, uma daquelas pérolas da língua portuguesa, um show de ausências gramaticais e literárias: nada de vírgulas, acentos, concordância nominal, coerência argumentativa ou respeito às regras mais elementares de lógica. Nada disso. Apenas marxismo requentado. Apenas bom-mocismo e “tolerância”. E ainda tenho que responder! Não posso ser omisso! Buááááááááááá… Diz a voz dentro de mim.

Mas há um aspecto positivo em tudo isso. Estou exercitando minha agilidade argumentativa como nunca. Daqui a pouco serei um portento de lógica e retórica! Tudo bem, eles vão continuar não entendendo nada do que eu digo. Mas ao menos eu vou saber com mais clareza qual foi o real motivo, quero dizer, em qual parte do argumento eles se perderam, em que momento da discussão ocorreu uma ruptura. Resumindo: eu provavelmente não vou mais me sentir culpado ou inseguro durante um “debate” escrito.

E talvez um dia eu seja capaz de, como Eric Voegelin, descobrir precisamente onde está o “buraco” (negrito meu): “Hegel is more complicated, and one can easily spend a lifetime exploring the possibilities of interpreting reality from this or that corner of the Hegelian system, without of course ever touching on the premises that are wrong – and perhaps never finding out that there are premises that are wrong. In conversations with Hegelians, I have quite regularly found that as soon as one touches on Hegelian premises the Hegelian refuses to enter into the argument and assures that you cannot understand Hegel unless you accept his premises. That, of course, is perfectly true – but if the premises are wrong, everything that follows from them is wrong too, and a good ideologist therefore has to prevent their discussion“.

A parte em negrito é uma lição de vida e vale o livro todo. Preste atenção quando estiver discutindo com alguém e for tomado por aquela sensação de que a conversa não vai chegar a lugar nenhum. Tente encontrar as premissas. Geralmente elas escorrem como água da boca do interlocutor. Cada par de palavras tem uma premissa oculta e você começa a ficar desesperado, pensando: “meu Deus, será que existe alguma premissa sensata nesse cérebro?”. Nessas ocasiões, vale o conselho de um antigo professor meu: “não se preocupe, pois tende a piorar”.

~ by Evandro Ferreira on September 14, 2002.

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