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Certa vez, quando eu cursava comunicação social na faculdade, uma professorinha de português (que, diga-se de passagem, nem sabia quem era Ferreira Gullar) pediu que fizéssemos um trabalho que consistia no seguinte. Analisar alguma música e dizer que sentimentos, opiniões e estados de espírito ela suscitava.

Uma garota escolheu uma música pop qualquer e falou dela por um tempinho. Lá pelas tantas, a professora perguntou: “E a letra da música?”. Ao que a menina respondeu: “Não analisei. Não prestei atenção na letra.”

Ao longo de meus 4 anos na faculdade de comunicação, presenciei várias cenas como essa. E hoje eu fico pensando em como a percepção que as pessoas têm de suas próprias experiências é inconsciente. Os jovens cantam as letras das músicas e elas despertam comportamentos os mais diversos. Mas, no fundo, se um indivíduo desses fosse realmente parar pra pensar, veria que nem entendeu direito o que cantou e, no limite, o que resolveu fazer com sua vida.

Daqui a uns 200 ou 300 anos, um estudioso vai revirar arquivos para ver como era o senso-comum do século XX/ XXI e vai encontrar letras como a de Epitáfio, do Titãs: “O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído”. Vai, provavelmente, concluir que não tínhamos muita fé. E que estávamos meio perdidos. Mas será que vai encontrar nos arquivos os verdadeiros culpados de tudo isso? Será que vai perceber que o senso-comum estava rigorosamente fundamentado em teorias filosóficas imbecis?

~ by Evandro Ferreira on September 7, 2002.

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