80695214

Depois que eu li o recém-lançado último número do Mídia sem Máscara, mudei de idéia e comecei a pensar que talvez também nós, aqui nesse blog, devamos colecionar, nas janelas de comentários, exemplos da existência daquele tipo de mentalidade tacanha de que aquela publicação tem sido “vítima”. O “vítima” vai entre aspas porque é no sentido cristão do termo, ou seja, é a própria essência da existência. O sentido de existir daquela publicação é justamente esse: ser vítima hoje para ser gloriosa no futuro. A única maneira de se abrirem os olhos daqueles que se negam a fazê-lo é ter fé em algo exterior a tudo, algo que está fora desse mundo. Estou falando como um convertido, sem sê-lo. Bem, acho que isso é fatal hoje em dia. Posso dizer que estou começando a entender no que consiste a fé, mas sinto um mal estar enorme quando participo daqueles rituais que se passam dentro de uma igreja. Talvez por saber que a imensa maioria daquelas pessoas – incluindo o padre, isso é o mais triste – “não sabem o que fazem”, no sentido da frase que Jesus pronunciou na cruz. Mas talvez seja justamente esse o requisito para ser perdoado: não saber o que se está fazendo.

Pior é aquele a quem o caminho é mostrado e ele torce o nariz e não se dá ao trabalho nem de verificar se o caminho pode ser o certo. E pior ainda é aquele que sabe que faz o mal.

Mas voltando ao assunto do Mídia sem Máscara, achei graça em um sujeito que, ao ouvir a editora dizer que o site não vai aceitar publicidade, disse que ele está fadado a sumir logo logo. Um sujeito desses não tem a mínima idéia do poder da verdade. Ele não tem a mínima idéia da quantidade de pessoas que escreve de graça hoje no Brasil e no mundo só para dar sua parcela de contribuição ao bem da humanidade.

O mais triste é que as pessoas no Brasil concebem o voluntariado nas ações sociais de ajuda às pessoas carentes, mas não concebem essa outra forma de voluntariado que é escrever contra a intelectualidade reinante. Considera-se a coisa mais normal do mundo um sujeito sair de sua casa, digamos, 2 horas por dia, para ir a uma favela ajudar os pobres, correndo risco de tomar um tiro e andando quilômetros e quilômetros subindo escadinhas de barro. Tudo isso de graça, sem receber nada. E, ao mesmo tempo, considera-se inconcebível o sujeito escrever uma coluna de graça: gastar 3 horas por semana para escrever um texto em contribuição a um jornal que quer ampliar o campo de possibilidades teóricas do debate público brasileiro, inacreditavelmente limitado a ações afirmativas, planos sociais governamentais de oposição ou não, e ONGs ecológicas.

Eu respeito muito o sujeito que sobe na favela para ajudar os pobres. Mas acho que isso hoje em dia é até meio fácil, pois quem faz isso é visto como herói bonzinho. Só isso pra mim já é prova de que algo está errado, é prova de que a solução para o problema deve estar em outro lugar. Digo isso porque, senão por outros meios, ao menos pelo estudo da história da humanidade podemos ver que aqueles que “tocam na ferida” não são admirados e cortejados em sua época, mas odiados pela maioria.

Só escrevi isso tudo para mostrar que um jornalista que acha que precisa necessariamente ganhar dinheiro com tudo que escreve é muito “sem-noção”. Lógico, temos que ganhar nosso pão. Mas se hoje não o ganhamos, não é por culpa do “mercado”, do neoliberalismo ou das grandes empresas. É simplesmente porque trabalhar em uma empresa hoje é um verdadeiro exercício de estupidez. É seguir uma série de regras sem sentido, resultantes de um conjunto extremamente complexo de fatores, todos eles resultantes de um só problema: o coletivismo. Escrever em um jornal, então, acho que esse é um dos maiores exercícios de perda da individualidade que se podem realizar. Você não escreve uma só linha do que pensa e não pode usar nem ao menos o seu estilo de escrita, nem que seja para dizer aquilo que não pensa. E isso não é porque o jornal precisa vender. Ou melhor, é e não é. O jornal realmente precisa vender. Mas se, para vender, ele precisa se estupidificar, é porque a mentalidade geral está estupidificada. É porque o leitor só compra o jornal se este trouxer o mesmo discursinho esquerdista cidadão de sempre.

~ by Evandro Ferreira on August 25, 2002.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: