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Não há mais cadernos culturais nos grandes jornais do Brasil. Cheguei a essa conclusão após longo tempo em que exercitei uma vã esperança de encontrar algum que mantivesse um mínimo de constância na qualidade das matérias. Mas não há nenhum. Bons ensaios, apenas esporadicamente, no máximo um por mês.

Se abro o Mais!, encontro o tal do Schwarz tentando traçar a identidade nacional através de uma complicada hermenêutica da obra de algum poeta. Mais ou menos como tentar chegar à Argentina de navio, “atalhando” pela Europa.

Se abro O Globo, vejo resenhas de livros marxistas e a curiosa coluna de Wilson Martins, um sujeito cultíssimo, que escreve há sei lá quanto tempo, mas que parece exercitar uma espécie de arte da neutralidade, em todos os sentidos. Quase irritante.

E no Estado de S. Paulo de ontem, havia uma matéria sobre O Senhor dos Anéis. Tudo bem que era sobre uma biografia recém lançada de J. R. R. Tolkien, portanto não tinha maiores pretensões de analisar a trilogia ou o filme. Mesmo assim, não é preciso muita inteligência pra perceber a inacreditável superficialidade e “sem-graceza” (adoro essa expressão!) da matéria. Esse pessoal acha que o leitor é burro. Só pode ser isso. Quem lê a matéria fica achando que a trilogia de Tolkien é uma espécie de best-seller um pouco mais bem-escrito que a média e que, por isso, causa a ilusão de que é literatura. E o filme? Mais uma produçãozinha hollywoodiana boba.

Aliás, com exceção do Martim Vasques, não vi mais ninguém falando da trilogia com seriedade no Brasil. Li vários artigos em inglês, quase todos muito bons. Mas o jornalismo cultural brasileiro parece estar totalmente dominado por uma espécie de indivíduo que escreve sobre encomenda e baseado numa técnica bem específica. O sujeito apenas recolhe umas tantas informações na Internet sobre o livro ou filme e procura montar um texto “atraente” com elas. “Atraente” é um texto que segue as regras do manual do jornal, tais como uma introdução básica, um desenvolvimento com algumas paradas para “instigar” o leitor com perguntas como “o que fez um livro como esse vender tanto?”, ou “o que está por trás dessa história?”. As respostas são tão bobas quanto as perguntas, e no final o leitor sai com a impressão de que sabe tudo sobre O Senhor do Anéis, sem ter queimado nenhum neurônio para isso. Maravilhoso, não é mesmo? Puro dumbing down, como diria o Sérgio Augusto.

Diante do marasmo dos jornais, a solução mais usualmente adotada pelos “mais cultos” ou mais cults é comprar o que costumo chamar de revistas de livraria (aquelas que não se vendem em bancas), recheadas de ensaios ultra-acadêmicos e ultra-chatos sobre o último livro de algum escritor genial formado em letras pela USP e que não encontra editora para publicar seus livros. Ah, e existe a Cult também, que publica reportagens sobre as eternas figuras do mainstream cultural. A última edição traz na capa o Wittgenstein, o Ferreira Gullar e o Loyola Brandão. Mais previsível, IMPOSSÍVEL. E a Bravo! ainda vale a pena, apesar dos pesares, ainda que só por ser a única revista cultural brasileira não-especializada e não-acadêmica, com uma distribuição decente. E, adivinhem, não se paga. É patrocinada pelo grupo Pão de Açucar.

~ by Evandro Ferreira on August 25, 2002.

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