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A babação de ovo com a cultura popular, assunto de que tratei em meu artigo de ontem no Digestivo Cultural, é um fenômeno social bastante fácil de ser percebido hoje em dia e que poderia muito bem ser estudado por alguem, se ainda houvesse sobrado algum sociólogo anti-marxista nesse país.

O fato é que por todos os lugares onde ando, só vejo cultura popular. Instituições gastam milhões de reais promovendo a cultura popular. As academias ocupam a maior parte de suas teses de mestrado com o estudo de fenômenos culturais sem a mínima importância, apenas porque são brasileiros e vêm do povo. E os artistas todos ficam macaqueando a arte popular e o artesanato, criando obras ridículas que são expostas nos mais famosos museus do país.

E o mais triste não é isso. O mais triste é que a arte contemporânea é tão ruim, que a arte popular realmente é melhor que ela. Prefiro muito mais uma daquelas bricolagens de santinhos e enfeites católicos do que uma tela do Amílcar de Castro. Aliás, prefiro quase qualquer coisa a uma tela do Amílcar de Castro – até o cocozinho da minha cachorrinha. O indivíduo parece que molha uma vassoura na tinta preta e varre a tela. Depois aparece algum crítico acadêmico e diz que viu na obra um jogo de claro/ escuro, uma exploração dos espaços vazios e do acaso, através da tinta negra no fundo branco, tinta que vai diminuindo à medida que o pincel corre a tela e os espaços vazios vão ficando cada vez mais aparentes entre o fluxo negro blá blá blá.

Tristes tempos esses, em que as classes letradas se tornam admiradoras das iletradas, tamanha a ignorância geral que tudo nivela. Parece que chegou a vez do povão mesmo. Não tenho nada contra. O único problema é que o povão ainda vai levar um bom tempo para se elevar ao ponto de se apossar da cultura erudita, no mínimo uns 4 séculos (de caos total). Mas o mais provável é que isso não ocorra. O mais provável é que dentro de um século (sou otimista, hein?) ninguém mais saberá quem foi Bach, a não ser os computadores que guardarão os arquivos com suas músicas, jamais visitados por ninguém. E os museus estarão repletos de cerâmicas artesanais, bandeiras do MST e fotos de figuras pitorescas do interior. E, enfim, todos os seres humanos terão alcançado a tão almejada igualdade, pela via mais fácil, a do nivelamento por baixo.

Note-se que eu nem mencionei o circo da TV aberta, com seus Ratinhos e Gimenez. Estou falando de uma coisa muito “menos pior” que isso. Estou falando do mundinho perfeito idealizado por nossos acadêmicos de plantão. Eles são a segunda opção. A “melhor” opção. A opção Roda Viva/ Abujamra!!

~ by Evandro Ferreira on August 14, 2002.

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