Memória
Porque sinto que há algo em comum entre aqueles violinos tristíssimos de Villa-Lobos que eu escutava quando me mudei para São Paulo e me sentia só, a poça de sangue que vi ao lado de minha avó depois de meu pai tentar ressuscita-la sem sucesso com a ajuda da geriatra e aquela avenida de Porto Alegre por onde passava quando chegava de viagem do aeroporto e sonhava com o aconchego do apartamento onde estaria em poucos minutos. Todas essas impressões estão em minha memória, aflitivamente próximas umas das outras, como que pedindo, implorando mesmo, que eu escute novamente aquele CD, visite o túmulo de minha amada avó ou embarque para Porto Alegre neste exato instante para ao menos passar por aquelas ruas novamente e tentar sentir um resquício das sensações que sentia quando por ali passava (na impossibilidade de alugar novamente e decorar exatamente igual aquele apartamento onde eu e minha mulher vivemos momentos tão felizes, muitas vezes conscientes, tantas sem o saber).

